Precisamos de uma nova forma de tratar o diabetes, diz médico<br> - Diabetes, Vida e Comunidade

Precisamos de uma nova forma de tratar o diabetes, diz médico

30/10/2017 - http://www.gazetaonline.com.br/bem_estar_e_saude/2017/10/pre


São 45 anos de uma carreira dedicada a tratar pessoas com diabetes. Agora, o endocrinologista Laerte Damaceno está fechando o consultório em Vitória, deixando “órfãos” centenas de pacientes. Não se trata de aposentadoria, pelo contrário. O médico está de mudança hoje para a Europa, onde vai encarar um desafio e tanto na área de pesquisa.

O tema diabetes continua uma inquietação para ele, que vai usar a experiência acumulada ao longo dos anos para criar um projeto ligado à tecnologia. “O tratamento hoje do diabetes é o mesmo tratamento do século 20. Precisamos de um paradigma novo, uma nova forma de tratar a doença”, defende o médico, que recebeu a reportagem de A GAZETA em seu consultório, na Praia do Canto, em Vitória, dias antes da mudança para Portugal. Confira trechos da entrevista:

O DIABETES

“O diabetes é uma doença assintomática, que se leva entre 9 e 12 anos para diagnosticá-la. Você perde, basicamente, 9 a 12 anos sem intervir no diabetes. E ao diagnosticar, em torno de 23% dos pacientes já têm complicações crônicas, quer seja nos olhos, nos rins, nos nervos...

É uma doença com um impacto muito grande, pessoal, pela perda precoce de capacidade produtiva da pessoa, pelo sofrimento que ela traz nas fases de complicações, e uma perda social enorme. São pessoas que poderiam estar produtivas para a sociedade. Mas estão consumindo os parcos recursos da Previdência Social com tratamentos caros quando precisam, por exemplo, de hemodiálise.

Temos vencido umas batalhas contra a doença, mas a guerra está perdida. Há uma expectativa de uma epidemia global de diabetes, que, no ano de 2040, vai atingir aproximadamente 640 milhões de pessoas. E 2040 está logo ali. Certamente, essas condições vão se agravar, e essas projeções vão aumentar nos próximos anos, como decorrência do sedentarismo, da obesidade da ingestão alcoólica, do estresse da vida urbana. A obesidade já é uma epidemia. No Brasil, 50% já têm sobrepeso. A obesidade atinge em torno de 16%. Isso vai resultar em diabetes.”

TRATAMENTO

“O diabetes continua sendo tratado pelos mesmos paradigmas, da mesma maneira que era tratado no início do século 20. E já estamos quase com um quarto do século 21. São mais de 100 anos de atraso na forma de tratar o diabetes.

A International Diabetes Federation recomenda que as ações contra o diabetes sejam precoces. Ou seja, que você detecte precocemente, que diagnostique precocemente, que inicie precocemente o tratamento e que você precocemente tenha acesso às boas práticas no tratamento contra o diabetes.

Estou de acordo com a necessidade dessa precocidade no tratamento do diabetes. Precisamos tratar o diabetes num paradigma novo. Temos que descobrir uma forma totalmente nova de tratar para que a gente alcance os resultados que não estamos alcançando no momento.”

TECNOLOGIA

“Na informática, o chip, que é a alma do computador, vem dobrando sua capacidade de produção a cada dois anos. E ficando menor e mais barato. Isso tem provocado uma enorme revolução nessa área, na tecnologia da informação. Sem falar que a internet colocou todo o conhecimento nas mãos das pessoas. Muita coisa dessa revolução na tecnologia de informação tem sido aplicada em outras áreas, com resultados muito bons. Pelo reconhecimento facial estão descobrindo a personalidade das pessoas!

Estamos com uma ferramenta muito poderosa e que não está sendo aplicada ou está sendo aplicada de forma inicial na Medicina. O que vou estudar nos próximos anos é como incorporar a tecnologia de informação ao atendimento médico. Muita coisa já existe, muitos dados. Só é preciso organizar esses dados e obter uma nova forma de trabalhar.”

BANCO DE DADOS

“Temos em torno de 21 fontes de informações sobre diabetes. Podemos usar desde o genoma até mesmo como é o comportamento das pessoas numa rede social. Um exemplo: a secretaria de Vigilância Sanitária do Reino Unido detecta aparecimento de epidemia de gripe somente 30 dias após a epidemia começar, por meio de notificação das unidades de saúde. Quando você analisa o Facebook, é capaz de detectar existência de epidemia de gripe em 10 dias depois de ela começar.

As pessoas acordam com mal-estar e vão para o Facebook escrever suas queixas. Analisando o conteúdo da informação que as pessoas dão espontaneamente, isso permite diagnóstico de uma epidemia com 10 dias só de início dela.

No caso do diabetes, temos registros de informações médicas e aqueles gerados por sensores para controle de diabetes. Isso pode constituir um gigantesco banco de dados. Mas o dado precisa gerar informação, alguém tem que interpretar. Há sistemas que já leem esses dados e encontram neles o que chamamos de modelos preditivos, situações que se repetem.

O que pensamos é um sistema que analise esses dados todos e que possa chegar à conclusão que há uma probabilidade que seja uma doença, por exemplo. Isso pode ser uma sugestão que a máquina faz ao médico que está te consultando. E aí o médico sabe o que fazer naquele paciente. Isso pode antecipar e muito as intervenções corretas.”

APLICABILIDADE

“A Sociedade Europeia de Cardiologia, por exemplo, recomenda um certo medicamento para diabéticos com doença coronária. O medicamento protege coração, rins e cérebro, reduzindo em 50% a progressão da doença renal no diabético. A recomendação foi publicada no dia 23 de maio de 2016. Para que essa informação chegue aos profissionais na ponta, isso leva de 5 a 10 anos. Num sistema desse, basta que você atualize os dados e, no dia seguinte, todos os médicos vão acessar essa informação. Esse sistema está em nuvem, não é preciso baixar nenhum programa no computador.

Recentemente, atendi uma pessoa com glicemia muito elevada. Indiquei medicação, que normalizou a glicemia desse paciente. Então, enviei para ele a sugestão de um aplicativo para ajudá-lo a iniciar uma atividade física. Era um aplicativo de corrida, intuitivo, de fácil utilização. Ao final de cada dia, pedi que me enviasse o relatório da atividade física. Quantos minutos ele andou, qual distância percorreu, qual foi a velocidade média, a frequência cardíaca como se comportou etc. E eu fui fazendo as intervenções nos momentos oportunos, por meio de WhatsApp. Ele não me ligou nem uma vez. No primeiro mês, emagreceu nove quilos. Isso com medicamento e exercícios. Nós comemoramos aqui.

As pessoas não gostam de fazer exercício. Temos que incentivar as pessoas a fazerem exercícios através de novos meios de comunicação.

Existe aplicativo de alimentação, de aplicação de insulina, de controle de glicose. Tudo isso já existe. Só precisa ser conectado a um banco de dados. Não é nenhuma loucura o que estou dizendo.”

O SISTEMA

“Em cima de todas as informações entra o machine learning, que antigamente era chamado de inteligência artificial, mas esse termo ficou com uma conotação negativa por causa dos filmes de robôs. Falar de inteligência artificial não soa bem. Hoje falamos de computação cognitiva.

A ideia é um sistema que aprende com esses dados e, pela lei de probabilidade, gera novas informações que podem beneficiar o paciente. E aí não tem limite. A capacidade de elaboração do computador é muito superior à nossa.

O sistema pode começar a analisar desde o genoma da pessoa e saber se há probabilidade de a pessoa ser diabética. Isso ao nascer. Pode também analisar dados do histórico familiar da pessoa, medidas da cintura dela.

Aí você diz: para isso não precisa do computador. Sim. Mas o computador organiza isso melhor. Se a pessoa não seguiu as recomendações indicadas, o sistema, que vai sendo alimentado pelo médico, vai fazer um alerta.”

O PROJETO

“Estou encerrando minhas atividades aqui. Já tenho uma lista de colegas para quem vou encaminhar meus pacientes. Escolhi Braga por ser um centro de excelência em tecnologia de informação. Possui técnicos de alta qualidade a mais baixo custo. Lá, estão desenvolvendo softwares abertos, colaborativos. Terei respaldo da Sociedade Brasileira de Diabetes e estou buscando parceria com a Universidade do Minho para que lá eu possa interagir com técnicos da comunicação, da informática.

A ideia desse projeto começou em 2012, num simpósio de líderes europeus, discutindo o que fazer diante da expansão do número de diabéticos no mundo.

A ideia é ter uma plataforma cognitiva que faça o gerenciamento inteligente das abordagens em diabetes. Estou chamando esse projeto de Diabetes Smart System.

O objetivo é pegar dados de aparelhos usados por pacientes diabéticos, esses que medem a glicemia e que injetam a insulina. Eles geram gráficos em tempo real. E isso pode ir para esse sistema, que certamente vai interpretar isso melhor. Ele terá dados gerais da pessoa. Quando a pessoa fizer um exame no laboratório, por exemplo, esse resultado será jogado no sistema.

A empresa IMB começou a construir essa plataforma, que está disponível a um preço razoavelmente baixo. Já estou em contato com a empresa. Pretendo juntar pessoas e instituições em torno disso. Junto comigo estão colegas de trabalho das maiores universidades brasileiras, que acreditam no que estou falando e me apoiam. E estou buscando financiamento para esse projeto.”

Médico e professor

O endocrinologista Laerte Damaceno, 68 anos, se formou na Universidade Federal do Espírito Santo, onde também atuou como professor, ajudando na formação de alguns dos melhores profissionais da área médica do Estado. Também foi diretor clínico do Hospital Universitário Cassiano Antonio Moraes por oito anos.
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