Diabetes não significa fim do prazer à mesa, diz nutricionista<br> - Diabetes, Vida e Comunidade

Diabetes não significa fim do prazer à mesa, diz nutricionista

31/10/2017 - http://midianews.com.br/cotidiano/diabetes-nao-significa-fim


A nutricionista Marina Thommen, especialista em diabetes, alerta para o avanço da doença no Brasil, onde, segundo ela, os casos crescem “assustadoramente”.

Apesar disso, a profissional diz que é possível manter uma boa qualidade de vida, com alimentação rica em sabor e, principalmente, nutrientes. Porém, ela pede moderação. “Eu costumo falar para os meus pacientes que não existe dieta para diabetes, existe uma dieta saudável que todos nós deveríamos seguir”, afirma.

Formada pela Universidade Federal de Mato Grosso, com treinamento na Joslin Diabetes Center, em Boston (EUA), a profissional é uma referência na Capital.

Eu, particularmente, não faço restrição de fruta. Eu acho que a gente tem que respeitar o gosto do paciente, o que ele gosta e não gosta, a sazonalidade

Nesta semana, a nutricionista atendeu a reportagem para falar sobre o tema, já que no próximo dia 14 de Novembro será celebrado o Dia Internacional do Diabetes.

Leia os principais trechos da entrevista:

MidiaNews - É possível ter uma vida prazerosa em alimentação mesmo com o diabetes?

Marina Thommen - Sim, com certeza. Eu, como nutricionista, acabo trabalhando bastante com essa parte da alimentação, que normalmente é onde há muita restrição. A maioria dos pacientes, quando diagnosticados, a primeira coisa que pensa é que não vai poder comer mais como comia antes. E hoje a gente percebe que há vários tipos de tratamento, várias linhas de tratamento que a gente consegue resolver isso. Então, há como flexibilizar para o paciente a parte da alimentação, assim como antes ele comia. Só que a gente baseia em uma alimentação saudável. Dá para ter prazer? Dá, com certeza. Uma vida normal. Eu costumo falar para os meus pacientes que não existe dieta para diabetes. Existe uma dieta saudável que todos nós deveríamos seguir - e para ele não é diferente.

MidiaNews - Como evitar a doença?

Marina Thommen - A gente tem que bater na tecla da prevenção porque as pessoas só acordam, talvez, nem no dia do diagnóstico. Eu atendo vários diabéticos ainda rebeldes, que já são diabéticos há tempos, mas ainda não acharam um meio de se educar, de controlar a glicemia. O mais importante hoje - como é uma doença de prevalência que cada vez está aumentando mais e assustadoramente -, acho importante trabalhar a prevenção. Cada um de nós deveria seguir uma dieta mais equilibrada, equilibrando nutrientes como forma preventiva, não só do diabetes como outros problemas de saúde também.

MidiaNews - Porque está acontecendo este aumento nos casos?

Marina Thommen - Aumenta mais em países em desenvolvimento. Nós temos dois tipos de diabetes. Há um tipo que é basicamente autoimune. Esse tipo tem aumentado, mas não tanto quanto o tipo 2. O tipo 2 é totalmente relacionado ao estilo de vida. Ele tem fator genético importante, mas está muito relacionado ao estilo de vida, como o sedentarismo, obesidade, alimentação desequilibrada. Isso aumenta o fator de risco para o desenvolvimento do diabetes tipo 2.

MidiaNews - Ainda falando sobre a alimentação. Há muita confusão entre produtos light e diet. A senhora pode dar uma definição?

Marina Thommen - Normalmente, o que a Anvisa [Agência Nacional de Vigilância Sanitária] determina é que os produtos diet são isentos de um ingrediente em relação ao normal. Isso é o que a gente vê na teoria. Ele poderia ser isento de sal, de algum ingrediente... Na prática, a gente vê que ele é isento de açúcar. Normalmente eles estão querendo dizer açúcar da cana. Se você for ver alguns produtos diet, na hora em que você compara o teor de carboidrato total, chega a ser muito semelhante ao produto normal. Às vezes não compensa porque o valor é muito maior e o teor de carboidrato no total é muito semelhante. Isso gera, realmente, uma dúvida. E o light é um produto com redução calórica. Pode ser que, para reduzir essa caloria, o fabricante tenha tirado o açúcar, pode ser que tenha tirado a gordura, ou que tenha tirado os dois. A gente precisa ver mesmo o rótulo para saber.

MidiaNews - Qual o limite diário de carboidrato e açúcares para um diabético?

Marina Thommen - Isso vai depender do valor calórico total. Por exemplo: quando a gente atende um paciente, eu preciso calcular as necessidades daquele paciente, as necessidades de energia. É baseado nisso que a gente faz a distribuição do que chamamos de macronutrientes, que são os carboidratos, as proteínas e as gorduras. Hoje, o que se recomenda depende. Algumas instituições variam um pouco nesse valor, mas a maioria recomenda em torno de 40% a 60% de carboidratos do valor calórico da dieta. E açúcar pode ser incluído. A gente sabe que o próprio açúcar da cana de açúcar não faz um efeito diferente de outros tipos de açúcar, outros tipos de carboidratos. Então a recomendação é que não ultrapasse 10% do valor calórico.

MidiaNews - O mercado está cheio de produtos diet, como doce de leite e sorvete. A senhora recomenda esses alimentos para pacientes diabéticos que sentem falta de um doce?

Marina Thommen - Às vezes sim. Não é porque o paciente é diabético que eu vou falar que ele nunca mais vai comer um alimento de que gostava - e que poderia ser até um doce. Então hoje a nutrição está andando um pouco na contramão desses produtos altamente processados. Alimento é o que vem da natureza. O que a gente encontra no supermercado de pacotinho, muitas vezes, são produtos altamente processados com uma grande quantidade de aditivo químico. Então tem que dar uma olhada nesse tipo de produto. Eu focaria mais e eventualmente incluir e tentar substituir por coisas um pouco mais naturais. Até que ele fizesse em casa seria uma saída melhor do que comprar alguns produtos prontos. Há algumas opções boas e outras nem tanto.

MidiaNews - Há muita desinformação sobre a doença?

Marina Thommen - Acho que sim. Hoje o diabetes é uma das doenças que mais avançam em prevalência na população. Sempre há alguém na família que tem ou algum amigo. Então as pessoas acham que sabem. Eu sempre pergunto aqui: você sabe o que é diabetes? A maioria me dá uma resposta satisfatória. Fala para mim: eu sei, é o excesso de glicose no sangue. Mas às vezes a pessoa não sabe como aquilo se dá, o que fazer para controlar esse excesso de açúcar. Então eu acredito que sim, ainda há bastante desinformação. Eles sabem que o carboidrato interfere na glicemia. Mas na cabeça deles, por exemplo, carboidrato é só o pão, batata, macarrão. E a gente sabe que não é só isso, nós temos outras fontes de alimentos ricos em carboidratos. Acho que a educação ainda é necessária.

MidiaNews - O diabético deve evitar estresse? Por quê?

Marina Thommen - Com certeza. O estresse, em vários níveis, pode favorecer secreção de hormônios que vão atuar favorecendo o aumento da glicemia. Quanto mais tranquilo for a vida do diabético, melhor. É um pouco difícil porque hoje, em dia todo mundo vive sobre estresse.

MidiaNews - Há uma noção de que todas as frutas são recomendadas para diabéticos. É verdade que certas frutas são proibidas? Pode falar um pouco sobre isso?

Marina Thommen - Eu não trabalho com proibição de fruta. A gente sabe que todas as frutas contêm açúcar, algumas mais e outras menos se a gente for comparar em porção. São raras as exceções nas frutas que não têm açúcar. Por exemplo, o abacate, que tem menos açúcar e mais gordura. A polpa do coco tem menos açúcar e mais gordura. E no limão, o teor de açúcar é bem baixo. O resto, todas as frutas, vai conter açúcar. Eu, particularmente, não faço restrição de fruta. Acho que a gente tem que respeitar o gosto do paciente, o que ele gosta e não gosta, a sazonalidade. Tem fruta que dá numa época, às vezes há pessoas que tem a fruta no quintal. Agora é a época da manga e aqui em Cuiabá muita gente gosta de manga. Eu jamais falaria para um paciente diabético que ele está proibido de comer a manga, porque tudo é uma questão de quantidade, de tamanho de porção. Eu não faço proibição de nenhum tipo de fruta, até porque são fontes de vitaminas, minerais e fibras. Mas a gente faz uma adequação de porção.

MidiaNews - Existem alimentos ideais para os diabéticos? Quais seriam?

Marina Thommen - Existem alimentos ideais para a população em geral. Não há nenhum alimento que seja melhor para o diabético consumir e que uma pessoa sem diabetes não possa se beneficiar também. Não há nenhum tipo de alimento que eu recomendo como ideal para um diabético. No geral, ter uma alimentação variada, saudável, como eu recomendo para a população em geral, é a mesma recomendação para um diabético.

MidiaNews - Um alimento muito difundido nos últimos anos é a batata doce por causa de uma suposta baixa carga glicêmica. O diabético pode consumir este alimento?

Marina Thommen - Nenhum alimento é consumido à vontade. A batata doce é um tubérculo rico em amido, assim como a batata inglesa, a mandioca, o inhame, o cará. Ela entra nessa classificação. São alimentos bastante ricos em amido. Eu não falo que ela seja liberada para o diabético porque, justamente, tem bastante amido – que é uma forma de carboidrato – que tem que ser controlado também. O que as pessoas ficam na dúvida é a questão do índice glicêmico. Na verdade, é o tempo que aquele alimento é digerido, convertido em glicose e eleva a glicose sanguínea. Muita gente erroneamente acha que a batata doce tem um índice glicêmico menor que outras batatas, sendo que na verdade a gente sabe que isso já não é mais nosso foco. Agora o foco é na carga glicêmica, que é o quanto essa pessoa vai comer que faz a diferença. Não adianta eu comer um alimento que produz pouca glicose e eu comer muito daquele alimento. A quantidade de carboidrato total vai acabar sendo grande.

MidiaNews - Aliás, o que a senhora pode dizer sobre carga glicêmica?

Marina Thommen - Para entender a carga glicêmica, a gente tem que entender o índice glicêmico. O índice glicêmico é um método de avaliação da velocidade que aquele carboidrato se converte em glicose e eleva a nossa glicose no sangue. A carga glicêmica está relacionada com a porção que essa pessoa vai consumir. Há alimentos que têm índice glicêmico alto, quer dizer, que se convertem em glicose muito rapidamente e elevam a glicose no sangue. Mas se a pessoa comer pouco desse alimento, vai ter um efeito muito semelhante do que ela pegar outro alimento com índice glicêmico maior ou menor. O que vai variar, realmente, é a carga. A quantidade que essa pessoa consome daquele alimento.

MidiaNews - Que dieta a senhora recomenda para quem pretende se precaver do diabetes?

Marina Thommen - Isso é importante porque a gente consegue prevenir. Hoje a gente fala muito em prevenção e não falaria só em dieta. Eu falaria em mudança do estilo de vida também. Ser menos sedentário, diminuir o tempo de comportamento sedentário porque, às vezes, a pessoa até faz atividade física, mas passa a maior parte do dia deitado à noite dormindo e durante o dia trabalhando sentado. Em relação à alimentação, eu acho importante ter uma alimentação um pouco mais equilibrada, lembrar que não há nenhum grupo alimentar proibido, salvo em casos de alergia. A gente pode comer de tudo de forma equilibrada. E a base da nossa alimentação eu focaria em vegetais como folhas, verduras, legumes, frutas em porções controladas, alimentos proteicos em quantidades adequadas. Por exemplo: carnes magras, peixes, leite, queijos, iogurte natural, ovos. É importante a presença de gorduras boas, como castanhas, nozes, amêndoas, azeite de oliva, abacate, linhaça, chia, além de um bom controle na quantidade de tubérculos, como batatas, mandioca, inhame, cará. É importante também o consumo de cereais, preferencialmente integrais, como arroz integral, aveia, trigo integral, quinoa. A gente tende a ter uma alimentação muito rica em alimentos ricos em carboidratos e consumindo poucos vegetais, frutas...

MidiaNews - As dietas para diabéticos são feitas a partir do perfil de cada paciente ou as restrições e permissões são exatamente as mesmas?

Marina Thommen - Como nutricionista, o nosso papel principal é fazer a individualização. A gente não trabalha de uma forma padronizada para todo mundo porque cada pessoa tem uma necessidade seja pela faixa etária, seja por necessidades diferentes mesmo. Para um diabético, vale a mesma coisa. É feita a avaliação individual com as preferências desse paciente. Vai haver pacientes que, por natureza, seguem uma dieta vegetariana, que não têm tanto consumo de carne e derivados e o consumo de proteína pode ficar um pouco diminuído. Então a gente tem que tentar dar um ajuste de proteína. Esses pacientes tendem a comer mais carboidrato do que outros. Então isso, realmente, é individual.
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