Situação do Transplante de Ilhotas no Brasil (Parte I) - Diabetes, Vida e Comunidade

Situação do Transplante de Ilhotas no Brasil (Parte I)

23/11/2002 - Comunidade DiabeteNet.Com.Br

Dr. Freddy Goldberg Eliaschewitz

Dr. Freddy Goldberg Eliaschewitz fala em entrevista exclusiva a Comunidade DiabeteNet.Com.Br sobre a situação atual do transplante de ilhotas no Brasil e sobre as novas pesquisas que estão sendo realizadas pela sua equipe.

Nesta primeira parte da entrevista ele nos fala exclusivamente sobre o transplante de ilhotas no Brasil.

Na segunda parte ele nos falará sobre a CONEP - Conselho Nacional de Ética em Pesquisa e na terceira parte sobre as novas pesquisas que estão sendo desenvolvidas pela sua equipe.

ENTREVISTA COM O DR. FREDDY GOLDBERG (PARTE I)

Comunidade DiabeteNet.Com.Br - O que é o transplante de ilhotas?

Dr. Freddy - É uma versão menos agressiva do transplante de pâncreas onde a imunossupressão também se faz necessária.

Comunidade DiabeteNet.Com.Br - Qual a diferença entre o transplante de pâncreas e o transplante de ilhotas?

Dr. Freddy - É que ao invés de transplantar um órgão inteiro, posto que somente cerca de 1 a 2% das células do pâncreas produzem insulina, nós procuramos isolar as ilhotas que contém as células beta e transplantamos apenas estas células que são as responsáveis pela produção de insulina. Como este volume é muito pequeno e as ilhotas estão em uma suspensão de soro, nós não precisamos de um procedimento cirúrgico verdadeiro, nós podemos fazer a injeção dessas ilhotas numa veia que transportará estas ilhotas para o fígado onde irão se espalhar-se, tomar residência dentro deste órgão e passar a produzir insulina.

Comunidade DiabeteNet.Com.Br - Quais as vantagens do transplante de ilhotas sobre o transplante de pâncreas?

Dr. Freddy - O transplante de ilhotas acaba sendo um procedimento muito menos agressivo do que o transplante de pâncreas; o paciente não precisa ficar com os dois pâncreas, o dele e o transplantado, ou com os problemas tais como desprezar o suco pancreático produzido pelo novo pâncreas, que é um suco digestivo.

Comunidade DiabeteNet.Com.Br - Quais as dificuldades do transplante de ilhotas?

Dr. Freddy - A primeira dificuldade está no fato de que separar as ilhotas do pâncreas tecnicamente é um procedimento muito complicado pois no final deste processo queremos ilhotas em condição de produzir insulina em resposta aos níveis de glicemia no sangue e o procedimento de separação em laboratório é um procedimento que se não for feito com toda uma técnica e com equipamento adequado, se consegue separar as ilhotas mas estas ilhotas não vão funcionar. Portanto, ganha-se em simplificação no processo cirúrgico de transplantar as ilhotas mas perde-se na sofisticação do processo de separar as ilhotas.

A segunda dificuldade é que quando se transplanta o pâncreas, as ilhotas deste órgão começam a receber a circulação de sangue normal e a produzir insulina imediatamentl. No caso do transplante de ilhotas, estas vão ter que fazer com que se formem novos vasos, veias e artérias e este processo é um processo que demora em média duas ou três semanas.


Comunidade DiabeteNet.Com.Br - É necessária a imunossupressão no transplante de ilhotas?

Dr. Freddy - Tanto no transplante de pâncreas – órgão total – como no transplante de ilhotas, a imunossupressão é necessária. Portanto, para um indivíduo diabético que vai ser transplantado de pâncreas ou que vai receber um transplante de ilhotas, ele não ficará livre da medicação, não estará livre dos cuidado; ele simplesmente vai trocar a insulina e os cuidados de dieta por cuidados relacionados a dose de imunossupressão pelos cuidados relacionados a possibilidade de ter infecções e, portanto, o transplante de pâncreas e o transplante de ilhotas não são indicados para qualquer tipo de diabético.

Comunidade DiabeteNet.Com.Br - Quem pode fazer transplante de ilhotas?

Dr. Freddy - Existe um consenso internacional de que os pacientes que têm indicação para um transplante de ilhotas são aqueles pacientes que tem uma instabilidade metabólica tal, tem uma dificuldade de controle metabólico tal que apesar de todo o esforço por parte do médico, todo o esforço por parte do paciente, apesar de 3 ou 4 injeções de insulina diárias, apesar de tudo isso este paciente tem uma instabilidade tão severa que ele não consegue controlar o diabetes, sendo vítima de freqüentes episódios de hipoglicemia e dos quais ele se defende com dificuldade pois são pacientes que tem hipoglicemia inadvertida, são pacientes que não percebem que vão ter hipoglicemia. Portanto, para estes pacientes valeria a pena trocar a condição de tomar insulina pela condição de tomar imunossupressores. É preciso que se deixe bem claro que a medicação imunossupressora, embora hoje ela apresente bem menos efeitos colaterais, ainda assim é uma medicação que para ser indicada para alguém para o resto da vida, precisa-se pensar com toda consciência, tanto por parte do médico como por parte do paciente.

Portanto, as indicações para o transplante de ilhotas hoje são:

- Pacientes com diabete hiperlábil, tendo episódios de hipoglicemia freqüentes ( pelo menos 3 episódios no último 1 ano e meio em que o paciente tenha precisado de ajuda para sair deste estado de hipoglicemia e que ele não tenha se apercebido desta hipoglicemia);

- Pacientes que tenham uma única complicação que está progredindo rapidamente apesar do bom controle do diabetes – em geral a retinopatia;

- Pacientes que não tenham nenhuma outra patologia muito importante, incluindo-se aí a insuficiência renal.


Comunidade DiabeteNet.Com.Br - O que teve de diferente no protocolo de Edmonton?

Dr. Freddy - Vários fatores, mas talvez o mais importante fator de sucesso tenha sido a modificação no esquema imunossupressor que com o auxílio dos novos imunossupressores, que não existiam antigamente, a equipe de Edmonton dispensou o uso de corticóides no esquema imunossupressor, ou seja, segundo este protoloco não se utiliza corticóides. Por ter uma ação diabetogênica - aumenta a glicose no sangue -, quando se usava corticóides nos transplantes anteriores ao protocolo de Edmonton criava-se uma situação de esforço às ilhotas recém implantadas e que, portanto, ainda não tinham vascularização adequada, que tal esforço acabava por prejudica-las.

Um segundo fator é que durante o processo de separação das ilhotas, de 800 mil a 1 milhão de ilhotas, que um pâncreas normalmente possui, consegue-se extrair um máximo de 300 a 400 mil ilhotas.Portanto, existe uma perda muito grande de ilhotas no processo de purificação e separação. O protocolo de Edmonton, diferentemente do que se tinha feito até o momento, passou a visualizar o número de ilhotas funcionando e não apenas as ilhotas de um pâncreas para um receptor.


Comunidade DiabeteNet.Com.Br - Como estão os estudos para o transplante de ilhotas no Brasil?

Dr. Freddy - Na verdade o nosso grupo estuda transplante de ilhotas desde 1994.
Quando os resultados do protoloco de Edmonton foram divulgados, em 2000, o nosso grupo já tinha praticamente dominado toda a técnica de purificação de ilhotas e já tinha feito vários experimentos paralelos com encapsulamento no laboratório e com multiplicação de células, mas compreendemos que a continuidade de nosso trabalho passava pela capacidade de também reproduzir o sucesso obtido no Canadá.

Foi feito, então, um projeto que foi submetido ao Conselho de Ética do Hospital Israelita Albert Einstein. Devido aos altos custos do projeto, o Hospital Einstein comprometeu-se a bancar todos as despesas hospitalares e laboratoriais durante o procedimento do transplante e a Universidade de São Paulo, mais especificamente o Laboratório de Biologia Celular e Molecular do Instituto de Química da USP, fez uma “sala limpa” para preparar as ilhotas, ou seja, uma sala de padrão estéril equivalente ao que a indústria farmacêutica utiliza para fazer medicação injetável, inclusive com filtros para vírus e filtros para bactérias e os gastos de isolamento ficariam por conta da Universidade e dos financiadores da Universidade como a FAPESP – Fundação de Amparo a Pesquisa do Estado de São Paulo, CNPq e outros.

No Brasil, quando se faz uma pesquisa médica, ela tem duas instâncias. Uma instância é o Comitê de Ética e Pesquisa da Instituição – No caso o Hospital Israelita Albert Einstein. A outra instância, que é em Brasília, é representada pelo CONEPE – Conselho Nacional de Ética em Pesquisa.

Enviamos uma cópia do projeto para o CONEPE e após uma análise detalada que durou vários meses a respeito dos riscos para o paciente, resolveu, agora em setembro, por aprovar o transplante de ilhotas no Brasil.




Acaba aqui a primeira parte da entrevista com o Dr. Freddy Goldberg. Na segunda parte da nossa entrevista o Dr Freddy falará sobre as novas pesquisas desenvolvidas pela sua equipe. Para ver a segunda parte dessa entrevista Clique aqui

A Comunidade DiabeteNet.Com.Br publica também os critérios e forma de contato para quem quiser fazer parte das novas pesquisas sobre a insulina inalável e a lenta, para saber mais clique aqui
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Comentários sobre este conteúdo

  • ANA MARIA GAVA
    09/12/2009 - 03:06

    GOSTARIA IMENSAMENTE QUE MEU FILHO DE 13 ANOS PUDESSE SER AVALIADO POR ESTA EQUIPE MÉDICA. COMO DEVO PROCEDER? ELE É DIABÉTICO E RESISTE AO TRATAMENTO, O QUE VEM GERANDO PROBLEMAS DE ORDEM PSICOLÓGICA GRAVÍSSIMA. ELE FALA MUITO EM SUICÍDIO EM FUNÇÃO DA DOENÇA. POR FAVOR, NECESSITO DE AJUDA.
    (27) 37119332
    (27) 99474141

  • silva.t.g
    03/04/2010 - 21:49

    foi otimo pois fiz um fichamento sobre este assunto e gostei bastante dessas pesquisas e do artigo que foi publicado no Art.Bras.Endocrinolo Metab. ajudara sim muitas pessoas no mundo que sofrem este problema.


    ass: Thayhana Guimaraes / Am
    Faculade de Ciencias Biologica

  • SONIA DE ALMEIDA
    12/03/2012 - 09:49

    MEU NOME É SONIA DE ALMEIDA, TENHO 56 ANOS DE IDADE .MORO EM BRASILIA ,E TENHO DIABETE A 4 ANOS E GOSTARIA MUITO DE PODER PARTICIPA DO PROGRAMA DA CURA DA DIABETE .
    TEL 061-3037-8970 OU 061-8198-9858

  • Nilza PalmieriMacedo
    06/08/2012 - 01:26

    Minha irmã tem diabete tipo 1,esta sofrendo muito com tudo isso se pudesse participar dessas pesquisa iria ser muito bom...

  • Daianny Cristina
    11/10/2012 - 09:21

    Meu marido tem39 anos de idade e 19 anos que desenvolveu diabetes ja esta hipertenso e com insuficiencia renal, gostaria muito que ele fizesse esse transplante porque ele resiste muito aos tratamentos e esta psicologicamente desanimado e isso agrava ainda mais o estado dele. como deveriamos proceder para ser voluntario.

  • Ana Paula Figueiredo
    04/12/2012 - 13:56

    OLÁ ! ME CHAMO ANA PAULA E SOU DIABÉTICA TIPO 1 A 12 ANOS. GOSTARIA DE SABER COMO FAÇO PRA FAZER PARTE DESSA PESQUISA/TRATAMENTO OU ATÉ MESMO DE PASSAR COM ESSA EQUIPE DE MÉDICOS. MINHAS LIMITAÇÕES VEM ME CAUSANDO PROBLEMAS NO MEU COTIDIANO, JÁ ESTIVE INTERNADA VÁRIAS VEZES E NÃO QUERO FICAR DEBILITADA DA FORMA COM QUE PENSO. PRECISO DA AJUDA DE VOCES PARA MELHORAR A MINHA SITUAÇÃO!!! ESTOU DESESPERADA E CONTO COM O CONTATO DE VOCES, PROFISSIONAIS TÃO COMPETENTES. AGRADEÇO DESDE JÁ. QUE ABENÇOE TODOS VOCES.

    (011) 35943 9661
    (011) 97200 1105
    (011) 3984 5881
    (011) 2258 5068
    (011) 7873 0780

  • GLÓRIA MARIA FRANCO
    29/10/2015 - 16:10

    OLÁ ! ME CHAMO GLORIA MARIA E SOU DIABÉTICA TIPO 1 A 30 ANOS, ME TRATO NO HOSPITAL PEDRO ERNESTO, COM ENDOCRINOLOGISTA MARILIA BRITO, NAO TENHO PROBLEMA ALGUM,OLÁ ! ME CHAMO ANA PAULA E SOU DIABÉTICA TIPO 1 A 12 ANOS. GOSTARIA DE SABER COMO FAÇO PRA FAZER PARTE DESSA PESQUISA/TRATAMENTO OU ATÉ MESMO DE PASSAR COM ESSA EQUIPE DE MÉDICOS. MINHAS LIMITAÇÕES VEM ME CAUSANDO PROBLEMAS NO MEU COTIDIANO, JÁ ESTIVE INTERNADA VÁRIAS VEZES E NÃO QUERO FICAR DEBILITADA DA FORMA COM QUE PENSO. PRECISO DA AJUDA DE VOCES PARA MELHORAR A MINHA SITUAÇÃO!!! ESTOU DESESPERADA E CONTO COM O CONTATO DE VOCES, PROFISSIONAIS TÃO COMPETENTES. AGRADEÇO DESDE JÁ. QUE ABENÇOE TODOS VOCES. HA NAO SER O DIABETE, MINHA GLICEMIA CHEGA 35, GOSTARIA DE SABER COMO FAÇO PRA FAZER PARTE DESSA PESQUISA/TRATAMENTO OU ATÉ MESMO DE PASSAR COM ESSA EQUIPE DE MÉDICOS. PROFISSIONAIS TÃO COMPETENTES. AGRADEÇO DESDE JÁ. QUE ABENÇOE TODOS VOCES.

  • Gloria Maria Franco
    29/10/2015 - 16:23

    OLÁ ! ME CHAMO GLORIA MARIA E SOU DIABÉTICA TIPO 1 A 30 ANOS, ME TRATO NO HOSPITAL PEDRO ERNESTO, COM ENDOCRINOLOGISTA MARILIA BRITO, NÃO TENHO PROBLEMA ALGUM, HA NÃO SER O DIABETE, MINHA GLICEMIA CHEGA 35, GOSTARIA DE SABER COMO FAÇO PRA FAZER PARTE DESSA PESQUISA/TRATAMENTO OU ATÉ MESMO DE PASSAR COM ESSA EQUIPE DE MÉDICOS. PROFISSIONAIS TÃO COMPETENTES.... AGRADEÇO DESDE JÁ. QUE ABENÇOE TODOS VOCÊS.

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