(Parte 2) Dr. Daniel Benchimol esclarece todas as dúvidas e dá entrevista exclusiva a Comunidade DiabeteNet.Com.Br - Diabetes, Vida e Comunidade

(Parte 2) Dr. Daniel Benchimol esclarece todas as dúvidas e dá entrevista exclusiva a Comunidade DiabeteNet.Com.Br

30/01/2003 - Comunidade DiabeteNet.Com.Br

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DiabeteNet.Com.Br: Mulheres diabéticas podem ter parto normal?
Dr. Daniel Benchimol: Devem. O nascimento por via vaginal estimula o bebê a respirar ao nascer. O parto normal freqüentemente acontece quando o bebê encontra-se maduro para nascer. As estatísticas apontam que as complicações neonatais (problemas com a saúde do recém nascido) são menores quando o parto se dá por via baixa (natural) e a termo (com quarenta semanas de gravidez).

É claro que a grávida diabética, assim como qualquer gestante, pode ter indicação técnica para o parto cesáreo ou precoce. Mas infelizmente sabemos que o Brasil também é campeão no número de partos cirúrgicos.

O resultado é que as "UTI" neonatais estão repletas de prematuros. É importante contar com uma equipe que não indique cesariana rotineiramente e que não sucumba à pressão da própria gestante para a ilusão do parto sem dor, visto que um filho com paralisia cerebral vai custar sofrimento para a mae e o para o filho resto da vida.


DiabeteNet.Com.Br: Mulheres com Diabetes Gestacional podem vir a se tornarem diabéticas após a gestação?
Dr. Daniel Benchimol: Sim. Mulheres que se tornaram diabéticas durante a gravidez devem ser acompanhadas de perto após o parto, pois já demonstraram, na prática, uma fragilidade do seu sistema metabólico em situação de estresse.

Durante toda a gravidez, a placenta produz um hormônio (lactogênio placentario ) que se contrapõe à ação da insulina. Entretanto, apenas um pequeno número de gestantes eleva sua taxa sangüínea de glicose (açúcar), e esta minoria deve seguir as recomendações médicas, que se aplicam a cada caso individual.

Geralmente, a glicemia (taxa de açúcar no sangue) volta ao normal dois meses depois do parto, e a mãe deve, então, se submeter a um teste de tolerância à glicose (curva glicêmica), pois esse exame vai definir se a puérpera continua diabética ou não. Sabemos que após o nascimento do bebê, é comum a mãe esquecer-se de si para cuidar da criança, e por isso é bom reforçar a necessidade desse acompanhamento, tendo em vista a grande possibilidade da presença do Diabetes em uma nova gravidez.

Atualmente, existem estudos com resultados encorajadores demonstrando que alimentação apropriada, atividade física regular, controle de peso e medicamentos apropriados contribuem para reduzir o risco de transformação de casos de intolerância à glicose (pré-diabetes) em Diabetes definitivo.


DiabeteNet.Com.Br: Filhos recém nascidos de mães diabéticas que nasceram grandes tem um risco maior de se tornarem obesos na vida adulta?
Dr. Daniel Benchimol: Sim. Na vida intra-uterina, a insulina desempenha o papel do hormônio de crescimento para o feto. O alto nível de glicemia da mãe faz com que o açúcar chegue em grandes concentrações ao feto, que reage liberando muita insulina. Isso determina um maior número de células gordurosas. Caso o peso do bebê aumente de maneira significativa durante os seis primeiros meses de vida, haverá uma grande tendência para que este indivíduo torne-se um adulto obeso. Isso não quer dizer que a mulher diabética não deva engravidar, ou que não possa evitar que isso ocorra. Um controle rigoroso do açúcar antes e durante a gravidez prenunciam um bebê de peso normal.

DiabeteNet.Com.Br: Existe relação entre o tamanho do recém nascido e o controle do diabetes durante a gestação?
Dr. Daniel Benchimol: Sim. O peso do bebê deve ser acompanhado ainda na barriga de toda gestante através de curvas que definem a faixa de peso ideal para cada época da gravidez. Quando o bebê pesa mais do que o esperado, é chamado de GIG (Grande para a Idade Gestacional); quando pesa menos, é chamado de PIG (Pequeno para a Idade Gestacional). Uma barriga que cresce muito e/ou uma idade gestacional (tamanho do bebê) que cresce mais do que o esperado retratam, em muitos casos, um elevado nível de açúcar no sangue da gestante. O bebê que nasce com peso superior a 4 kg numa gestação a termo é considerado macrossômico (grande). É bom analisar a placenta e prevenir principalmente as quedas de níveis de açúcar do bebê nos primeiros dias após o nascimento. O bebê que nasce com peso acima do esperado para a idade gestacional (GIG) corre um risco maior de tornar-se um adulto diabético; entretanto, isso não deve ser motivo para uma diabética evitar a gravidez, pois, até que seu bebê se torne diabético, a cura para o Diabetes provavelmente já terá sido encontrada. Por outro lado, uma placenta com má irrigação não nutre adequadamente o feto, e o torna Pequeno para a Idade Gestacional (PIG). O prematuro em peso (baixo peso) também tem maior probalidade de desenvolver o Diabetes.

DiabeteNet.Com.Br: Pacientes com Diabetes Gestacional tratadas com insulina exigem maiores cuidados do que as tratadas apenas com dieta?
Dr. Daniel Benchimol: Sim. O uso de insulina implica na necessidade de a gestante e sua família serem preparadas para este tratamento. O controle do açúcar por testes na ponta dos dedos (monitorização da glicemia capilar), realizados em casa, deve ser feito cerca de seis vezes ao dia, inclusive durante a madrugada. Todo um programa alimentar deve ser cumprido a fim de evitar quedas acentuadas na taxa de açúcar (hipoglicemia) da gestante, que deve procurar atendimento especializado junto a enfermeiras, educadores, nutricionistas, endocrinologistas e obstetras dedicados a esta área para um aprendizado contínuo. Manter a taxa média de açúcar abaixo de 100mg/dl é uma tarefa que requer empenho, apoio, conhecimento e equilíbrio, garantindo um bebê saudável, pais felizes e avós encantados.

DiabeteNet.Com.Br: O início do Diabetes, tempo de duração e a presença de complicações podem influenciar no prognóstico da gestação de uma diabética?
Dr. Daniel Benchimol: Sim. Sabemos que um dos fatores mais importantes que contribuem para o aparecimento de complicações do Diabetes é sua duração. Por isso, muitos médicos recomendam que mulheres diabéticas se programem para engravidar mais cedo, pois caso ela tenha ficado diabética aos 15 anos de idade, uma gravidez aos 20 ou aos 30 anos fará muita diferença. Isso porque durante os primeiros cinco anos de diabetes tipo 1 raramente se apresentam complicações crônicas, que, por outro lado, tornam-se comuns após 15 anos de evolução. Essa seria a diferença entre engravidar aos 20 ou aos 30 anos. Além disso, as complicações tendem a agravar-se na gravidez, trazendo mais riscos para a mãe e para o bebê. Se as complicações oculares, renais ou cardíacas não progredirem, o risco pode ser muito reduzido com uma gravidez programada e um controle médico rigoroso. À equipe médica cabe orientar; aos pais, decidir; a todos, apoiar. O medo deve ser substituído pelo bom senso e, caso seja decidido pela gravidez, não se devem medir esforços para um cuidado primoroso que aumente as chances de bons resultados.

DiabeteNet.Com.Br: Retinopatia ou Nefropatia preexistentes podem se agravar após a gestação?Dr. Daniel Benchimol: Como foi dito acima, essas complicações tendem a agravar-se na gestação e, após o parto, voltar às mesmas condições observadas na pré gravidez. Nos casos em que as lesões estejam avançadas, essa piora pode significar o "fim da linha" para o órgão em questão (olhos ou rins), levando à cegueira e insuficiência renal. Esta última geralmente põe em risco a vida da mãe e do feto, embora resultados satisfatórios possam ser conseguidos. Muitas dessas gestações levam à eclampsia da mãe (pressão alta, edema acentuado), o que obriga a interrupção da gestação. Esses fetos têm altas taxas de óbito e complicações.

DiabeteNet.Com.Br: Durante a gestação, com que freqüência se dão as consultas médicas, e hoje em dia as gestantes diabéticas permanecem internadas durante toda a gravidez?
Dr. Daniel Benchimol: No primeiro e terceiro trimestres, as consultas endocrinológicas são semanais, enquanto no 2º trimestre são quinzenais. O contato telefônico constante complementa essas consultas. Educadores em saúde, enfermeiros, psicólogos, nutricionistas e obstetras farão o agendamento de suas consutas conforme o caso. A hospitalização permanente migrou para uma tendência de tratamento ambulatorial até o parto. Por outro lado, não podemos utilizar a hospitalização como último recurso, pois ela pode chegar tarde demais. A experiência profissional pesa muito nesses casos.

DiabeteNet.Com.Br: Após a gestação é muito importante o acompanhamento dos recém nascidos para prevenir eventuais complicações?
Dr. Daniel Benchimol: Em todos os casos, a monitorização do bebê é vital. Os recém-nascidos freqüentemente apresentam hipoglicemia (taxa de açúcar menor que 25 mg/dl), que deve ser evitada com amamentação precoce quando o bebê tem condições; do contrário, esse açúcar deve ser administrado por sondas gástricas ou soros glicosados. Distúrbios respiratórios são comuns, e a monitorização da taxa de oxigênio pode evitar a "síndrome da morte no berço". Atualmente, a neonatologia avançou muito e, além de salvar vidas, tem reduzido o número de crianças com seqüelas neurológicas.

DiabeteNet.Com.Br: É aconselhável que o planejamento da gravidez de uma diabética se dê meses antes da gestação?
Dr. Daniel Benchimol: A formação do feto (embriogênese) acontece durante as primeiras semanas de gravidez. Quando o nível de açúcar não está absolutamente controlado, aumentam os riscos de má-formações congênitas. Por isso, o controle do Diabetes antes da fecundação torna-se essencial. Infelizmente, muitos casos já nos chegam no 2º ou no 3º mês, quando o feto já está praticamente formado. Alguns abortamentos durante o primeiro trimestre são conseqüência de má-formação congênita grave. Isto não deve ser motivo para desânimo: uma nova gravidez em condições ideais terá grandes chances de bons resultados. Esse é um investimento que deve ser assumido com total empenho e sem espaço para concessões. O que ocorre durante uma vida inteira de um diabético é reproduzido nos nove meses de uma gravidez.

Um nível médio de glicose abaixo de 100mg/dl antes e durante a gravidez praticamente iguala as chances de morte fetal à da população não diabética, enquanto uma média acima de 175mg/dl eleva a taxa de mortalidade para 24%. Essa informação geralmente é suficiente para convencer a gestante a investir o máximo em um tratamento intensivo. As flutuações dos níveis de glicemia podem ser estabilizadas com a ajuda de bombas de insulina e, em muitos casos, com o uso de múltiplas doses diárias de insulina (4 a 5 ao dia). Muito esforço deve ser investido no maior troféu da vida que são os nossos filhos saudaveis.
A Comunidade DiabeteNet.Com.Br tem como finalidade informar e interagir com os seus usuários. Antes de qualquer decisão ou atitude, é indispensavel a discussão sobre os pontos aqui abordados juntamente com médicos de sua confiança.

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