A Pequena Maria - Diabetes, Vida e Comunidade

A Pequena Maria

25/08/2003 - ADOTE - Aliança Brasileira pela Doação de Órgãos e Tecidos

A Pequena Maria

Há cerca de dois anos e meio eu e minha família convivemos de perto com este drama.

Em 03/1999 nasceu minha sobrinha (Maria Fernanda Righetto Flores), criança aparentemente tão saudável quanto minha filha (Isabela) que havia nascido em 01/1999. Logo nos primeiros meses foi detectado Atresia das Vias Biliares em minha sobrinha, e aí começou nosso sofrimento.

Minha família,e principalmente minha irmã e meu cunhado, iniciaram então uma verdadeira penitência e mudança de vida, tudo em função de um único objetivo: salvar a pequena Maria.

Inicialmente, foi uma cirurgia de grande porte, que tentaria resolver o problema e evitar que ela necessitasse de um transplante de fígado. Após dias de agonia e sofrimento, recebemos o resultado: O transplante era inevitável e o pior, seria necessário bem mais rápido que se esperava - e assim minha sobrinha entrou na fila de espera.

De início todo nossa estrutura emocional veio abaixo, pois transplante era uma "coisa" tão distante de nossa realidade - não poderia estar acontecendo conosco.

Iniciou-se uma nova etapa para todos, minha irmã começou a se informar sobre os procedimentos e entidades ligadas à transplantes. Veio a se inscrever na ADOTE. E, de repente, toda nossa família caminhava juntos em uma só campanha: a doação de órgãos.

Em meio ao nosso drama, também descobrimos coisas maravilhosas (a união de quem necessita de transplante, as pessoas dispostas à ajudar conscientes de seu papel, solidariedade e principalmente as estórias de sucessos e finais feliz - que nos davam ânimo e força para continuar).

Com o passar dos meses a doença e o quadro foi agravando, e as nossas esperanças se transformavam em sofrimento devido a falta de doadores.

Não vendo soluções, foi sugerido pela equipe do Hospital da Criança (clínicas)- SP, que realizássemos um transplante ente vivos. E. após vários testes, minha irmã (mãe da Maria) foi escolhida como a doadora mais compatível.

Em meio a este quadro, nossa família havia se transformado em uma forte e atuante equipe de campanha a favor à doação de òrgãos e tecidos. Havíamos distribuído cartazes, folder, etc.

O mais esperado e temido dia havia então chegado.

No domingo (dia da internação do hospital e um dia antes da cirurgia), foi marcado um almoço em minha casa para reunirmos a família. Afim sabíamos dos riscos para ambas. Meu cunhado, que por sinal é cirurgião, sabia que sua esposa e única filha (sua família enfim) estavam com futuro incerto. Ele nos dizia que era doloroso saber que todo seu conhecimento e anos de estudo não eram suficientes para ajudar a salvar sua filha e esposa.

No final daquele dia foi realizada a internação em São Paulo, e as cirurgias haviam sido marcadas para as 07:00 h.

Segunda feira chegou, e realizamos uma verdadeira vigília na sala de espera do centro cirúrgico. Após 8 horas de cirurgia, saía minha irmã do centro cirúrgico (sendo sua cirurgia um sucesso). Após +/- 12 horas saía minha sobrinha, já transplantada e com sua cirurgia considerada um sucesso.

Apesar do quadro aparente de sucesso, sabíamos que as próximas 48 horas eram importantes.

Tudo transcorria bem na recuperação pós cirúrgica de ambas, quando no final do 2º dia minha sobrinha (que ficava acompanhada de minha mãe -sua avó) veio a apresentar um piora no quadro. De imediato ela foi levada ao centro cirúrgico, e o que mais temíamos ocorreu: havia ocorrido uma rejeição do órgão.

Toda a equipe médica, e as entidades e hospitais, tornaram-se então uma força tarefa.A pequena Maria passou a ser a 1ª da lista de transplantes, e o objetivo era um só: achar 01 fígado compatível em, no máximo, 48h.

Começamos uma corrido contra o relógio (foram as piores e mais longas horas de toda a minha vida), vigílias, terços e uma interminável espera ao lado do telefone do hospital.

Cada vez que recebíamos um aviso da equipe, dizendo que havia surgido a possibilidade de um órgão, nossas esperanças cresciam, Logo a esperança dava lugar ao desespero, por saber que a família não havia autorizado a doação ...

Assim, seguimos por +/- 30 horas. O quadro da pequena Maria ia se agravando, e as negativas de doação por parte de familiares de doadores potenciais aumentavam.

Na madrugada do 2º dia após o transplante (quando meu cunhado - por ser médico - acompanhava sua filha na UTI), recebemos um telefonema: Devido ao agravamento do quadro, a pequena Maria Fernanda havia falecido. Meu cunhado, transtornado deixou a UTI e veio se encontrar conosco (e minha irmã, que estava prestes a receber alta). Neste momento um milagre aconteceu, recebemos um novo telefonema da UTI avisando que haviam reanimado a Maria e que uma família (apesar da dor) havia autorizado a doação dos órgãos de sua pequena filha falecida naquela noite.

Iniciou-se uma grande e nova corrida, a pequena Maria foi preparada e a equipe foi buscar o órgão.

Devido ao grande (ou melhor imenso) ato de amor de uma família em seu maior momento de dor, a pequena Maria e outras pessoas receptoras podiam sonhar coma chance de sobreviver.

O novo órgão chegou até o HC, porém veio tarde demais. A pequena Maria havia falecido minutos antes da chegada...

Nossa família (principalmente minha irmã e meu cunhado que não pouparam esforços), ficaram mergulhados em um imenso vazio. Porém, minha irmã surpreendendo à todos, chamou a equipe médica e manifestou seu desejo: Que, se fosse possível, gostaria de doar os órgãos saudáveis e tecidos da pequena Maria - afim de que ninguém passa-se pelo mesmo sofrimento. Este desejo também era para marcar o quanto acreditávamos na solidariedade e necessidade de doação e que, o sofrimento pode ser amenizado com um gesto de amor e doação.

Minha irmã, após isto, recebeu um grande milagre. Ela havia sido conscientizada pelos médicos que devido à sua cirurgia (considerada de grande porte), após 06 meses poderiam ser realizados exames para se verificar sobre quando seria possível engravidar novamente (afinal este era seu desejo natural,uma vez que havia perdido sua única filha). Porém, apenas 02 meses após o ocorrido, ele veio a saber que estava grávida! Nasceu então sua segunda filha, que veio a reforçar nosso pensamento de que Deus nunca nos havia desamparado.

Assim, diante do que passei (das vezes que tenho de explicar a minha filha sobre onde esta sua priminha, que tanto brincavam juntas - dos caso de esperança que tive contato - dos amigos que conhecemos), gostaria de ajudar a divulgar cada vez mais a campanha de doação de órgãos e tecidos.

Sei que a pequena Maria não foi vítima da doença que a atingiu, mas sim foi vítima da falta de solidariedade e consciência da necessidade de sermos doadores - que ainda atinge grande parte das pessoas (que acham que "isto"nunca poderá acontecer com elas ou sua família).

Maurício Righetto

Nota: Este depoimento foi retirado do site da ADOTE - Aliança Brasileira pela Doação de Órgãos e Tecidos / www.adote.org.br - e é como uma homenagem a todos os nossos amigos que morreram na espera pela bondade de uma família e, principalmente, uma homenagem à "Pequena Maria", que Deus a tenha com carinho.

A Diretoria
Comunidade DiabeteNet.Com.Br
A Comunidade DiabeteNet.Com.Br tem como finalidade informar e interagir com os seus usuários. Antes de qualquer decisão ou atitude, é indispensavel a discussão sobre os pontos aqui abordados juntamente com médicos de sua confiança.

Dê sua opinião sobre este conteúdo

Comentários sobre este conteúdo

Seja o primeiro a comentar este conteúdo!

Cadastre seu comentário!


Surgyplast


Depoimentos
  • Pesquisa
  • Associe-se
  • Fórum

Acompanhe nosso arquivo de conteúdo:

» « Novembro - 2017
D S T Q Q S S
   1234
567891011
12131415161718
19202122232425
2627282930  

© Copyright 1997-2017 - e.Mix

As informações apresentadas a você pelo DiabeteNet contém informações gerais.
Nenhuma informação deve ser interpretada como tratamento, diagnósticos, conselhos médicos e não deve substituir a orientação do seu Médico.