Entre a Carol e o Edu: pedras no caminho dos transplantes - Diabetes, Vida e Comunidade

Entre a Carol e o Edu: pedras no caminho dos transplantes

18/12/2003 - ADOTE


Este texto, obtido na ADOTE - Aliança para Doação de Órgãos e Tecidos - reflete a realidade em muitos Hospitalis do Brasil e serve como um alerta para que nossos profissionais de saúde sejam conscientizados da enorme importância que tem a doação de órgãos para muitas pessoas que passam, às vezes, anos esperando por um órgão que nunca chegará...



Em fevereiro de 1997, após um acidente de automóvel, Carolina, uma menina de 16 anos, entrou no Hospital Memorial de Natal, especializado em atendimentos de emergência, com sinais de descerebração. Pouco tempo depois, um neurologista, com base em testes clínicos e em uma tomografia computadorizada, realizada em uma clínica localizada fora do hospital, fez o diagnóstico de morte encefálica.

Os pais da Carolina, sem vacilarem, autorizaram os médicos assistentes e à administração do hospital a doação dos órgãos possíveis. Agiram assim por duas razões: primeiro, já haviam experimentado o drama da espera por um doador para um sobrinho que, portador de uma doença chamada Ceratocone, teve as córneas transplantadas no Instituto de Olhos da Paraíba, há mais de 15 anos; segundo, outro sobrinho, Eduardo, já estava há mais de dois anos na expectativa de uma provável indicação de transplante cardíaco.

Três dias após o acidente, verificou-se que o hospital nada fizera com respeito à doação. Indagados, médicos e enfermeiros apenas diziam: "aqui ninguém não faz isso não". Em contato com o médico do Eduardo, em Porto Alegre, o mesmo orientou no sentido de procurar, em Natal, o responsável pela captação de órgãos no Estado ou, até mesmo, telefonar para a Central de Transplante de São Paulo a qual, possivelmente, teria condições de captar órgãos em Natal.

Fez-se um contato com tal médico, que por sinal atendia no mesmo hospital, que passou o telefone da equipe de transplante em Recife. Em seguida foi também feito um contato com a Central de Transplante de São Paulo. Ali, uma atendente muito educada, demonstrando boa vontade e treinamento para a situação, solicitou as informações básicas da possível doadora: nome, idade, causa do acidente cerebral, grupo sangüíneo, peso aproximado, etc..

Outras informações, estritamente de natureza médica, deveriam ser fornecidas por um profissional com acesso ao prontuário da paciente. Foi-lhe então fornecido o número do hospital. Surpreendentemente ela respondeu: "não estamos autorizados a fazer ligações interurbanas". O hospital de Natal era quem deveria ligar. Na administração deste a atitude foi semelhante: "nós também não fazemos ligações interurbanas, a não ser que o plano de saúde do seu irmão autorize". O autor é irmão do pai da Carolina.

A batalha seguinte foi convencer uma médica, plantonista da UTI, a falar com Central de Transplante através de um celular de uso pessoal. Recusava-se porque, alegava, jamais tivera uma experiência semelhante (sic). Somente foi convencida quando lhe foi dito com "muita calma": olha, pega este telefone, digite este número (011 306-41649), diga alô, quem é, porque está telefonando, que certamente a conversa deslanchará. Dito e feito. Mas já era tarde. A pressão arterial da provável doadora zerara (ou tornara-se inaudível?) há mais de 12 horas.

Foi assim que uma menina de 16 anos, bela e, mais importante, saudável, perdeu a chance de, tornando-se doadora, reciclar o seu corpo, permitindo que possivelmente outras seis pessoas, de imediato, continuassem vivendo sem a ajuda de máquinas. De algum modo, entretanto, conforta-nos o fato de saber que pessoas por aí vêem o mundo através das córneas dos belos e inesquecíveis olhos da Carol.

A história do Eduardo, embora diferente em alguns aspectos, também envolve doação de órgãos. Começou em outubro de 1994 quando, com dores abdominais, náuseas e vômitos, foi atendido em um pronto-socorro de Pelotas, RS, onde se suspeitou de apendicite. Dias depois, com os mesmos sintomas, teve um quadro súbito de dispnéia, cianose, hipoglicemia, etc. Transferido às pressas para uma UTI, uma equipe médica multidisciplinar (um clínico, um cardiologista e um gastroenterologista) rejeitaram acertadamente a hipótese de apendicite, levantada anteriormente pelo mesmo clínico, e estabeleceram, com base na interpretação equivocada do resultado de provas de funções hepáticas, o diagnóstico de hepatite fulminante. Esta hipótese, para visível decepção da equipe, principalmente do "professor" de gastroenterologista, não foi comprovada.

Na verdade, o Eduardo desenvolvera uma miocardite que evoluiu para uma miocardiopatia dilatada, como sói acontecer, segundo a literatura médica, em um número reduzido de casos semelhantes. É uma das principais causas de indicação de transplante cardíaco no mundo e mata mais da metade dos pacientes em até cinco anos. Esta foi a causa básica de sua morte, no final de maio, no Instituto de Cardiologia, em Porto Alegre, depois três anos e sete meses do diagnóstico dos médicos daquele Instituto.

Neste período, passou 165 dias na lista de espera por um doador. Em 1997, através da Lei 9.434, de 4 de fevereiro, regulamentada pelo Decreto 2.268, de 30 de junho, o governo brasileiro estabeleceu as regras para os transplantes de órgãos no Brasil. Essa lei somente entrou em vigor em janeiro deste ano. O período entre junho e dezembro fora reservado para uma campanha de esclarecimento da população sobre o seu aspecto mais importante — a doação presumida, ou seja, a regra, segundo a qual, toda pessoa que não declarou em vida intenção contrária à doação é automaticamente doadora. Quem se lembra dessa campanha? Ninguém. Não houve. Pelo menos até agora.

Enquanto a Carolina não conseguiu doar os seus órgãos, por causa de um impedimento burocrático mesquinho, o Eduardo não teve um doador porque, com certeza, não estamos suficientemente informados e conscientes da necessidade da doação e dos seus critérios. Paradoxalmente, o doador existe.

Segundo o responsável pela captação de órgãos no Estado de São Paulo, Agenor Spallini Ferraz, se todas as ocorrências de morte encefálica fossem notificadas, as equipes credenciadas para realizarem os transplantes seriam insuficientes. Mas uma constatação estatística é dolorosa: mais de 30% das pessoas necessitando de um transplante de coração, por exemplo, morre na lista de espera. O Eduardo, 15 anos, entrou nesta estatística, deixando uma imensa e dolorosa saudade.

Entre a Carol e o Edu encontram-se as pedras no meio do caminho dos transplantes no Brasil: num país com muita lei e pouca saúde é gritante a desinformação, a falta de uma estrutura organizada, a burocracia exagerada e a ausência, inclusive, e principalmente, na classe médica, de um pouco de boa vontade para com o coletivo. No conjunto, são coisas que atrapalham a doação de órgãos."

Por F. N. de Assis (escrito em 05/06/98, uma semana após a morte do Eduardo)




Nota DiabeteNet: A CPI do Tráfico de Órgãos Humanos, requerida pelo deputado Neucimar Fraga (PL-ES), que tem o visível intüito de "aparecer na mídia", está causando a MORTE de dezenas de pessoas por este Brasil afora graças ao pânico gerado na população com medo de que os órgãos de seus parentes falecidos vão ser traficados, mesmo que nenhuma destas famílias que estão recusando a doação destes órgãos saiba exatamente o que significa a palavra "tráfico" sugerida pelo nobre parlamentar(!)
A Comunidade DiabeteNet.Com.Br tem como finalidade informar e interagir com os seus usuários. Antes de qualquer decisão ou atitude, é indispensavel a discussão sobre os pontos aqui abordados juntamente com médicos de sua confiança.

Dê sua opinião sobre este conteúdo

Comentários sobre este conteúdo

Seja o primeiro a comentar este conteúdo!

Cadastre seu comentário!


Surgyplast


Entrevistas
  • Pesquisa
  • Associe-se
  • Fórum

Acompanhe nosso arquivo de conteúdo:

» « Novembro - 2017
D S T Q Q S S
   1234
567891011
12131415161718
19202122232425
2627282930  

© Copyright 1997-2017 - e.Mix

As informações apresentadas a você pelo DiabeteNet contém informações gerais.
Nenhuma informação deve ser interpretada como tratamento, diagnósticos, conselhos médicos e não deve substituir a orientação do seu Médico.