Depoimento Ernani: uma lição de vida - Diabetes, Vida e Comunidade

Depoimento Ernani: uma lição de vida

17/02/2004 - Comunidade DiabeteNet.Com.Br

Ernani

Viajar é sempre uma boa pedida. Para o pessoal do cicloturismo, fica melhor ainda se for de bicicleta! Dentro desse espírito, um carioca e dois paulistas, aproveitando alguns dias de férias de final de ano, resolveram unir o útil ao agradável, num percurso para todos os gostos: desfrutar desde o visual da serra, até as belezas do litoral, incluindo no trajeto, cidades tanto do Estado do Rio, quanto do Estado de São Paulo.

Nossos três amigos são todos engenheiros, e por força de hábito profissional, acham o planejamento fundamental, e sugerem que antes de se lançar a essas aventuras, que a muitos pode parecer radicais, que se faça um planejamento básico de toda a viagem, decidindo o percurso, os locais de pernoite, e que sejam identificados os principais obstáculos.

O planejamento básico foi feito em quase um mês: como havia participantes do Rio de Janeiro e de São Paulo, a cidade de Barra Mansa/RJ foi escolhida como ponto de partida; o percurso iria incluir, dentre outras, as cidades de Lídice e Paraty, do Estado do Rio, e Ubatuba, Caraguatatuba, São Sebastião, tendo como destino final, Bertioga, nas proximidades de Guarujá e Santos. A data de partida foi dia 11/dez, uma quinta-feira; Aurelio, o carioca, iria somente até Paraty, retornando no domingo de ônibus, porque tinha compromissos profissionais já no início da semana no Rio; os demais, Ernani e Rogério, prosseguiriam viagem.

Nessas viagens com bicicleta, com início em cidade distinta daquela em que se mora, tudo começa com uma pedalada até a rodoviária (ou ao aeroporto se o ponto de partida for mais distante): no primeiro trecho a magrela é despachada no bagageiro do ônibus. Os paulistas Ernani e Rogério levantaram cedo, para pedalar 5 km de casa até a rodoviária de Santo André, onde pegaram o ônibus das 7:20h da manhã, com chegada prevista em Barra Mansa às 12:20h – houve um atraso, e chegaram somente às 14:00h; Aurelio, que partiu do Rio, pedalou 7 km e pegou o ônibus das 10:00, que chegaria em Barra Mansa precisamente às 12:15h.

Primeiro dia: Barra Mansa / Getulândia / Rio Claro / Lídice

Nossos cicloturistas saíram da rodoviária de Barra Mansa às 15 horas; a primeira providência foi passar no primeiro bar e fazer um abastecimento de água mineral. Atravessam um viaduto por cima da Via Dutra, com um visual estupendo da serra onde iriam passar os próximos dois dias pedalando. Finalmente, estão na RJ155, rodovia Francisco Saturnino Braga. O sol estava alto e as horas no ônibus não ajudaram muito no rendimento. O calor foi o pior inimigo, mas as subidas intermináveis eram compensadas com belas paisagens de fazendas de pecuária, rios, pequenas vilas e gente simples do campo. E, é claro, com descidas formidáveis também!

Por volta das 19 horas, estavam ainda em Rio Claro, a 20 km e algumas subidas de Lídice, convencidos de que chegariam no escuro. Aurélio comprou pilhas para o farol dianteiro e prosseguiram no caminho. A chegada na pousada em Lídice foi às 20:15h, já com as luzes da cidade acesas, após 56km percorridos e 4 horas de pedal efetivo (descontando as paradas). Estavam realmente cansados, mas animados: o primeiro dia de uma viagem de bicicleta é sempre o mais puxado. Nada que uma bela macarronada que a dona da pousada preparou e uma boa noite de sono não resolvesse.

* Segundo dia: Lídice / Águas Claras / Ariró / Bracuhy / Frade / Mambucaba

No segundo dia de viagem o início foi às 9 horas, afinal nossos amigos mereciam levantar um pouco mais tarde. O destino era Mambucaba, distrito de Angra dos Reis, no litoral. O sol já estava forte, e o começo era sempre com uma série de exercícios de alongamentos. Algumas subidas, agora já não tão íngremes e não tão duras, mostravam todo o contorno da bela rodovia e do verde da mata da serra.

No século XIX, esta era uma região produtora de café. Agora dedica-se basicamente à pecuária. O turismo ainda é muito tímido na região, o que preserva a autenticidade do caminho. Rios com corredeiras de águas límpidas e uma bela ferrovia, ativa até quase um ano atrás, que no passado levava o café das fazendas e recentemente o aço de Volta Redonda ao porto de Angra dos Reis, emolduravam a paisagem. Após algum tempo, finalmente chegaram à parte mais esperada do trajeto: os fabulosos túneis cavados na rocha. São três túneis, escuros e úmidos, sem acabamento interno e com pavimentação de paralelepípedo, onde foi possível observar nas fendas onde foi detonado o explosivo para abrir a passagem na rocha. Na saída do primeiro túnel pode-se avistar a paisagem com a baía de Angra dos Reis. O pavimento é de paralelepípedo por 5km, o que os obrigou reduzir a velocidade e redobrar a atenção, pois estava extremamente escorregadio.

Após as incontáveis subidas do dia anterior, foram recompensados com 9km de descida com muitas curvas fechadas – tiveram até que parar para esfriar os aros das bicicletas devido ao atrito com as sapatas de freio, e evitar que os pneus estourassem. Ao invés de seguirem direto até a BR101 em bom asfalto, a partir do distrito de Águas Claras, desviaram pelo caminho do Ariró, para uma paisagem bem rural e pavimentos de asfalto, alternados com terra e areia até a rodovia. Foi complicado andar na areia com a bicicleta carregada. Ernani e o Rogério levavam 12kg de carga cada um. O Aurélio foi mais esperto – levava bem menos.

Finalmente chegaram à rodovia BR-101 (Rio-Santos), num calor de 42°C, onde um excelente acostamento os leva até o vilarejo do Frade para um belo almoço com peixe na beira mar. Pedalam mais alguns quilômetros e já avistam a Central Nuclear de Angra dos Reis, onde assistem a um vídeo e palestra sobre a tecnologia nuclear e o que ela representa para o desenvolvimento do país. Já eram quase 17 horas, e então continuam até Mambucaba, onde são hospedados no Corpo de Bombeiros que, muito gentis, cedem alojamento e refeição. Nesse dia foram 64km em 4 horas de pedal efetivo.

* Terceiro dia: Mambucaba / Tarituba / Paraty

O terceiro dia de viagem inicia com clima instável – a temperatura estava muito agradável, porém com ameaça de chuva. O destino era Paraty. Cerca de 10km depois de Mambucaba, chega-se ao vilarejo de Tarituba, uma simpática vila de pescadores que parece parada no tempo. A cicloviagem prossegue na Rio-Santos, e agora o asfalto não é muito bom, alguns chuviscos e uma parada providencial para comer umas bananas e tomar água de coco. A entrada em Paraty foi pela praia do Jabaquara, por uma estrada de terra. Esta rota leva diretamente para as excelentes instalações do Camping Clube do Brasil, onde foram muitíssimo bem recebidos, revendo velhos amigos ali acampados. Foram 46km em 2:49h de pedal efetivo.

Após um belo banho e uma moqueca com pirão de peixe devorados no almoço, o programa foi conhecer Paraty a pé. Já estava chovendo, mas não isso não tirou o ânimo de nossos viajantes. Visitaram a fantástica e bem cuidada vila histórica, conversaram com pessoas de lá. No cais, uma surpresa: três navios da Marinha estavam com a tripulação de aspirantes da Escola Naval em treinamento. Aurélio e Ernani, além de ciclistas são também velejadores, se empolgaram em conversa com os futuros oficiais da armada, e foram logo convidados para conhecer a sala de comando de um dos navios – um grande aprendizado! A noite termina com um rodízio de pizza, e a dormido escutando a chuva...





* Quarto dia: Paraty / Picinguaba / Ubatuba

A manhã do 4º dia de viagem foi uma surpresa: aquele dia 14 de dezembro estava realmente lindo, com a natureza e a arquitetura de Paraty em todas as suas cores. Após o café da manhã, Rogério e Ernani deixaram o Aurélio na rodoviária, pois, como previamente programado, ele deveria voltar ao Rio de Janeiro devido aos compromissos de trabalho. Definitivamente, despedidas não são boas...

Agora eram dois cicloturistas na maior distância a ser percorrida até então nesta viagem: Ubatuba, já no Estado de São Paulo, era o próximo destino. Parada no primeiro posto para calibrar o pneu, e a viagem continua. No quarto dia de viagem, o rendimento já era melhor; o sol aparece timidamente e não estava tanto calor. De fato, como previsto, havia muitas subidas, em especial a última antes da divisa com o Estado de SP – íngreme e longa, com aproximadamente 4,5km. Mesmo assim, os 86km foram completados em apenas 5:15h de pedal efetivo. Antes de entrar na cidade, um almoço num quiosque à beira da estrada, um bom filé de pescada, bem preparado e com bom preço também.



A bicicleta por lá é largamente utilizada em Ubatuba: para entregas, para transporte, para levar os filhos à escola, para fazer compras. Os bicicletários estavam repletos de bicicletas, uma grande idéia que deveria ser adotada em cidades maiores. A parada obviamente foi no Camping Clube onde os cicloturistas, mais uma vez, ficaram surpresos com as instalações – havia famílias inteiras em barracas e motor-homes, com direito a antena parabólica e praia praticamente particular – coisa de primeiro mundo que existe aqui no nosso amado Brasil.

* Quinto dia: Ubatuba / Caraguatatuba / São Sebastião / Ilhabela


No quinto dia de viagem, Ernani, que é transplantado, começou a sentir a garganta um pouco ruim, talvez por causa do ventilador ligado a noite toda. Mas a cicloviagem prossegue!

As tralhas são arrumadas, café da manhã numa padaria e seguem pela Rio-Santos com destino a São Sebastião.

Nesse trecho o acostamento é ruim, e a rodovia muito movimentada, enfim, o caminho mostra-se mais perigoso do que antes. A chegada a Caraguatatuba é bem na hora do almoço. A grande pedida: quiosque com ducha gelada na praia, e uma bela porção de peixe. Estavam novos para enfrentar a serrinha que antecede a chegada à praia de São Francisco, no município de São Sebastião. Realmente as subidas são duras, com acostamento pífio, muitos caminhões e ônibus espremendo os ciclistas contra os paredões. Pelo menos aí o asfalto é bom e a paisagem melhor ainda – lá do alto pode-se ver Caraguá. Chegaram em São Sebastião, e foram conhecer o centro histórico e o terminal petrolífero, onde aportam petroleiros gigantes trazendo petróleo do Oriente Médio. Do outro lado, Ilhabela. Por que não atravessar o canal?




Foi o que fizeram. A balsa do Dersa, que faz a travessia, gratuita para ciclistas e pedestres, é um exemplo de respeito ao cidadão. Sombra e lugar seguro para ficar com a bicicleta nos 20 minutos de travessia. Foram 80km em 5 horas de pedal efetivo até lá. Perto da entrada da balsa, conseguiram uma pousada simpática e barata; um pouco de descanso e conhecer Ilhabela! Bom, não deu para conhecer muito, pois uma chuva terrível iniciou-se naquele momento, e então o melhor programa foi entrar num restaurante para o jantar. A volta para a pousada foi debaixo de chuva.


 


 
* Quinto dia: São Sebastião / Bertioga

Na manhã seguinte, a dor de garganta do Ernani havia piorado que então, por prudência, decidiu voltar de ônibus a São Paulo a partir de São Sebastião, encerrando sua viagem com 334km percorridos. O Rogério estava com garra, e resolveu enfrentar o desafio do caminho até Bertioga, passando pelas bravas subidas das serras de Maresias e Toque-Toque. E ele fez! Percorreu mais de 100km de pedal sozinho nesse dia e completou o trajeto todo até Bertioga. Voltou desde lá para São Paulo de ônibus e ainda pedalou até a sua casa.

Foram seis dias pedalando por caminhos algumas vezes perigosos, mas sempre maravilhosos. O grupo esteve sempre unido e animado, com muita camaradagem. Aprenderam muito nesse caminho. O maior aprendizado: simplicidade. Em seus alforjes, tinham o suficiente para a sobrevivência, o que faz pensar se os “luxos” da vida moderna são realmente necessários. A bicicleta, em seu estado de veículo simples, é excelente para aproximar os viajantes da população de cada local e conhecer seus costumes – a bicicleta não intimida! Com a bicicleta, pode-se ver detalhes que, muitas vezes, passam despercebidos pelos motoristas. É barato e viável viajar de bicicleta, e não precisa ser nenhum super atleta para isto. Basta conhecer bem seu corpo e seus limites, pois o auge do condicionamento físico é atingido durante a viagem.

Conheça os cicloturistas:

- Aurélio Moreira, do Rio de Janeiro - RJ, 61 anos, engenheiro eletricista. Tem uma reclinada Zöhrer Under Control. Com esta bicicleta já fez inúmeras viagens pelo Brasil e algumas pelo exterior. Também é iatista, participando assiduamente das regatas do CCB, e de outros cruzeiros pela costa brasileira.

- Rogério Ibanhes Polo, de São Paulo – SP, 35 anos, engenheiro químico. Tem uma mountain bike Alfameq. É adepto de ciclismo de longa distância e membro do clube Audax Brasil.

- Ernani F. Perez Garcia, de Santo André – SP, 28 anos, engenheiro eletricista. Tem uma bicicleta híbrida Trek 720. Fez uma pequena cicloviagem no Nordeste em 2002. É transplantado de pâncreas desde março de 2001 e vive a vida intensamente. Iatista, veleja um valente Marreco 16 atualmente baseado na represa Billings.


RECADO DO ERNANI AOS AMIGOS LEITORES DO DIABETENET:

Como vocês verificaram no relato, fiz um transplante isolado de pâncreas em março de 2001, devido às hipoglicemias assintomáticas dos 8 anos de diabetes que me colocavam em risco de vida diariamente.

Fiquei novo. Nem o diabetes e nem a condição de transplantado me impedem de fazer as coisas que gosto. Nas viagens de bicicleta que fiz, e em inúmeros outros eventos ciclísticos que venho participando desde 2001, estive lado a lado com pessoas que nunca haviam tido problemas de saúde – e estávamos andando no mesmo ritmo, de igual para igual. O mesmo ocorre no trabalho.

O transplante representou um marco na minha vida. Posso dividir o tempo em “antes” e “após” o transplante. Hoje tenho planos para daqui a dez anos, estou de casamento marcado, iniciarei mais uma pós-graduação no mês que vem.

Enfim, vida normal, mais intensa do que nunca.

Você, diabético, não desanime jamais, pois há solução para o seu problema.

Para você, ex-diabético e transplantado, viva a sua nova vida em todos os seus aspectos, aprendendo sempre e respeitando as suas eventuais limitações. Você pode fazer tudo, faça o que o faça feliz.

Eu amo viver.

Ernani F. Perez Garcia
ernani.garcia@ig.com.br

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