Transplante de Ilhotas: Dr. Carlos Aita, pesquisador do NUCEL, esclarece sobre o assunto - Diabetes, Vida e Comunidade

Transplante de Ilhotas: Dr. Carlos Aita, pesquisador do NUCEL, esclarece sobre o assunto

06/04/2004 - ADJ


Esta entrevista foi gentilmente enviada pelo amigo e colaborador Mark Thomaz Ugliara Barone, que é membro do Conselho de Administração da ADJ e apresenta um enfoque diferente sobre transplante de ilhotas.  O Dr. Carlos Aita, membro do NUCEL - Núcleo de Terapia Celular e Molecular, do Inatituto de Química da USP,  além de pesquisador, também é portador de diabetes. Por isso, a visão do entrevistado ficou bastante interessante, como vocês poderão ver, pois ele tem motivos fortes para se dedicar à pesquisa em busca da cura do diabetes.

Dr. Carlos Alberto Aita
Médico, doutor em Bioquímica e Biologia Celular pelo
Instituto de Química da
Universidade de São Paulo


                            



 


Entrevista com o Dr. Carlos Aita


 


            A fim de tentar responder algumas questões sobre o Transplante de Ilhotas, fomos conversar com o Dr. Carlos Aita, que trabalha com essa linha de pesquisa no Laboratório de Isolamento de Ilhotas Pancreáticas Humanas do Instituto de Química da Universidade de São Paulo – USP. O Dr. Carlos foi diagnosticado com diabetes tipo 1 aos 24 anos, em 1990, quando já estava na área médica. Estudou medicina na Universidade Federal de Santa Maria no Rio Grande do Sul e veio fazer residência em São Paulo, quando já pensava em trabalhar com pesquisas em diabetes.


            Nesse momento diz ter tido que tomar uma decisão muito importante, se seguiria carreira como médico, atendendo pacientes ou se se dedicaria exclusivamente à pesquisa.


            Em 1993/1994 começou a procurar instituições que trabalhassem na área que havia escolhido, pesquisa em diabetes, mas não havia muitos lugares. Então, encontrou um grupo no INCOR – HCSP e já começou a preparar um projeto de mestrado de Isolamento e Transplante de Ilhotas. Porém, por ser, na época, um procedimento muito caro e de insucesso, acabou tendo que mudar seu projeto.


            Em 1995 o Dr. Freddy Goldberg Eliaschewitz entrou em contato com a Dra. Mari Cleide Sogayar do Instituto de Química da USP propondo uma parceria no sentido de se fazer experimentos de isolamento e transplante de ilhotas  em animais. Então, em 1998, o Dr. Carlos uniu-se ao grupo, iniciando um projeto de doutorado na mesma linha. Então, Dr. Carlos segue como pesquisador nesse grupo de pesquisas de ponta em diabetes no Brasil.


            O transplante de ilhotas há algum tempo é visto com grande esperança, como uma perspectiva de cura do diabetes, mas foi em 2000 que esse procedimento ganhou mais notoriedade, quando um grupo canadense, utilizando um novo protocolo conseguiu melhora de rendimento no isolamento e sucesso de manutenção das ilhotas transplantadas bem maior que conseguidos com os protocolos anteriores.


            Hoje, a equipe brasileira de pesquisadores, com treinamento no Canadá e trabalhos em colaboração com o Instituto de Pesquisas em Diabetes da Universidade de Miami, conta com conhecimento e experiência reconhecidos internacionalmente. O que ficou claro com o convite recebido pelo Dr. Carlos para participar da equipe que realizou o primeiro isolamento e transplante de ilhotas, utilizando o protocolo canadense, na Espanha.


            Abaixo, Dr. Carlos Aita esclarece algumas questões, que permanecem sobre o Transplante de Ilhotas.


 


1 - Qual o perfil do candidato ao transplante?


Dr. Carlos Aita: Os candidatos ao transplante de ilhotas são, necessariamente, portadores de diabetes tipo 1, maiores de 18 anos e que não conseguem manter um controle adequado de nenhuma outra forma. Normalmente, os submetidos ao transplante são indivíduos com alto risco de vida, devido a hipoglicemias inadvertidas e grande risco de desenvolvimento ou progresso de complicações crônicas. É importante deixar claro, também, que o transplante de ilhotas é um procedimento experimental, e, por isso, só deve ser usado quando não existe, dentre as terapias comprovadamente eficazes de controle, resultado para o individuo.


 


2 – Quantos transplantes já foram realizados até o momento no Brasil?


Dr. Carlos Aita: Até o momento já foram realizados dois transplantes. O primeiro transplante foi realizado em 1 de dezembro de 2002, na paciente Telma Mércia Rosário de Almeida. O segundo transplante foi realizado em 15 de novembro de 2003.


 


3 – Após o transplante o individuo fica livre de aplicações de insulina?


Dr. Carlos Aita: Quando se faz o transplante, tanto o de ilhotas, quanto o de pâncreas, não se pode garantir que o paciente ficará independente das aplicações de insulina. Na grande maioria dos casos a quantidade de insulina necessária fica no mínimo diminuída, o que já é um grande progresso para pacientes que sofriam de hipoglicemias asintomáticas, pois o risco de hipoglicemias severas fica reduzido.


 


4 – Qual o tempo de recuperação do indivíduo transplantado?


Dr. Carlos Aita: A recuperação é muito rápida, o paciente volta para casa no dia seguinte. Claro que não significa que pode ir pular de pára-quedas dois dias depois da cirurgia, pois apesar de ser um procedimento simples e pouco invasivo, são necessários cuidados, acompanhamento e repouso após o transplante.


 


5 – O transplantado terá que ter alguns cuidados especiais em relação à alimentação e ao estilo de vida?


Dr. Carlos Aita: Indica-se ao paciente que mantenha a mesma dieta e hábitos de vida saudáveis que são indicados antes do transplante para qualquer portador de diabetes.


 


6 – O que acontece com as ilhotas transplantadas?


Dr. Carlos Aita: Espera-se que funcionem como as ilhotas de um pâncreas saudável, mas não é garantido que todas as ilhotas transplantadas funcionem, pois o sistema imune ataca e destrói algumas células e por serem bastante delicadas e não estarem no ambiente ideal, algumas ilhotas não conseguem manter a produção de insulina. Além disso, como o rendimento do isolamento é baixo, geralmente é necessário o isolamento e transplante das ilhotas de mais de um pâncreas, para que se atinja o número adequado de células para cada paciente.


 


7 – Qual o processo para que as ilhotas não sejam destruídas no organismo do transplantado?


Dr. Carlos Aita: Atualmente o transplantado fica dependente de medicamentos imunossupressores para o resto da vida, assim como em outros tipos de transplante. Porém, sabemos que apesar de a imunossupressão ter melhorado muito e ter menos efeitos colaterais e ser mais efetiva hoje em dia, não é a forma ideal de evitar rejeições e manter o indivíduo saudável. Aí vem a perspectiva do encapsulamento das ilhotas, que seria uma forma de proteger as ilhotas fisicamente contra rejeição, sem a necessidade de utilizar imunossupressores. Entretanto, o encapsulamento é uma perspectiva futura que está sendo estudada.


 


8 – No seu ponto de vista compensa trocar insulina pelos imunossupressores?


Dr. Carlos Aita: Para a maioria dos pacientes que tem um controle adequado utilizando insulina, não compensa trocar insulina pelos imunossupressores, pois o paciente fica mais sujeito a infecções e com maior risco de desenvolvimento de câncer, como efeito do uso continuo dessas medicações. Por isso o transplante só é indicado para uma pequena minoria de pessoas, que apesar de fazer de tudo para manter um controle bom, não tem sucesso.


 


9 – O transplante de ilhotas significa cura do diabetes?


Dr. Carlos Aita: O transplante de ilhotas não é uma cura, é um tratamento (se forem retirados os imunossupressores, a doença volta), isso deve ter ficado bem claro com as respostas das perguntas anteriores.


 


10 – Então de onde você acha que vem a cura?


Dr. Carlos Aita: Poderíamos falar em cura, se tivéssemos um procedimento de reprogramação do sistema imune, para que não houvesse destruição das células beta do pâncreas, quando observamos os primeiros sinais de desenvolvimento de diabetes tipo 1 em um indivíduo. Acredito que futuramente, ainda melhor, o diabetes será curado antes de qualquer sinal do desenvolvimento da doença, a partir de procedimentos genéticos.


 


Mark Thomaz Ugliara Barone


Ariane Gomes Moreira

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Comentários sobre este conteúdo

  • Helio
    26/07/2009 - 22:55

    Olá como fasso para fazer transplante ?eu sou diabetico.

  • Nelson
    22/03/2010 - 15:07

    Meu filho tem diabetes tipo 1 há 5 anos, no último dia 15/03/10 ele completou 18 anos. Gostaria de saber se há um novo procedimento em estudo que possa ser aplicado em todos os diabéticos.

  • Marcos
    01/07/2010 - 18:14

    Olá, gostaria de parabenizá-los pelo esforço permanente em busca da melhoria de vida das pessoas acometidas por este problema.
    Gostaria também de saber se há algum progresso nas pesquisas sobre a regeneração das ilhotas a partir de células precursoras adultas? Vocês tem alguma informação?
    Obrigado.

  • maris
    26/07/2011 - 12:36

    Olá, eu gostaria de saber se há algum tipo de cirurgia que pode curar o diabetes do tipo 2 e eu tanbém queria saber como eu posso fazer . moro em santa maria -RS

  • maris
    26/07/2011 - 12:37

    Olá, eu gostaria de saber se há algum tipo de cirurgia que pode curar o diabetes do tipo 2 e eu tanbém queria saber como eu posso fazer . moro em santa maria -RS

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