Após liberação, Brasil tem de criar massa crítica de pesquisadores de embriões - Diabetes, Vida e Comunidade

Após liberação, Brasil tem de criar massa crítica de pesquisadores de embriões

30/05/2008 - G1 - Globo.com


Até que enfim terminou a prolixa votação do STF (Supremo Tribunal Federal) a respeito da polêmica pesquisa com células-tronco embrionárias humanas. Essa passou raspando e o momento quase virou vergonha nacional. Mas o que isso muda? Na lei nada; na prática, potencialmente muita coisa. Mas não vamos nos iludir, a lei brasileira ainda é bem conservadora, comparada com outros países. Por exemplo, só podemos usar embriões inviáveis ou congelados por mais de três anos. Ora, essa é a pior matéria-prima que se pode obter, pois já foi mostrado que células-tronco derivadas nessas condições não são as de melhor qualidade. Mas é um começo e devemos permanecer otimistas.

Temos a chance de estudar os primeiros capítulos do desenvolvimento embrionário humano pela primeira vez na história da humanidade. As conseqüências desse aprendizado serão enormes. Descobriremos a causa de uma série de síndromes genéticas, aprenderemos como acontecem malformações durante a gestação, como o câncer progride e invade outros tecidos, entre outras tantas questões sem resposta. Além disso, podemos usar as células-tronco embrionárias humanas para testar drogas contra doenças em que o modelo animal não recapitula os sintomas presentes nos pacientes.

Cientistas de diversas áreas que estavam, até então, flertando com a nova tecnologia, mas receosos de começar algo correndo o risco de ficarem ilegais, podem agora iniciar suas pesquisas com células-tronco embrionárias humanas. A idéia de ter diferentes grupos de pesquisa entrando nessa área deverá estimular inovações técnicas e aumentar a massa crítica no país.

Aliás, massa crítica torna-se agora o problema principal dos cientistas brasileiros pró-células-tronco embrionárias humanas. Com praticamente nenhum grupo trabalhando com essas células no país, temos que correr atrás do prejuízo de forma organizada. Para que isso ocorra, é necessário um planejamento arrojado, visando principalmente, a formação de mão-de-obra capacitada. Talvez a melhor maneira de se atingir isso em tempo recorde seja o estímulo de trabalhos temporários em laboratórios que dominem a tecnologia no exterior. Sem massa crítica e profissionais qualificados, financiamento é desperdício de recursos.

E com a queda do dólar e saída do Brasil da área de risco, atraindo investimentos estrangeiros, temos grande chances de ganhar investimentos em biotecnologia. Uma pena também não termos profissionais suficientes para auxiliar nessa transação (estamos perdendo oportunidades para a Índia...). Mas, no fim, acho que isso vai ser um bom estímulo.

Supondo que consigamos formar essas pessoas e que, em dois ou três anos, tenhamos alguns grupos dominando a tecnologia. O que o Brasil poderia fazer para se destacar internacionalmente? Essa é uma pergunta difícil, mas minha aposta é que deveríamos formar grupos para estudar assuntos ou doenças específicas. Infelizmente, isso esbarra em dois tradicionais entraves da ciência brasileira: a falta de cooperação entre os grupos e a estabilidade do pesquisador. A estabilidade é um câncer metastático complicado de se combater, mas o clássico isolamento do cientista brasileiro pode ser quebrado com organização e foco. Veja o exemplo do projeto genoma do amarelinho liderado pela FAPESP.

Outra área interessante será o uso das células pluripotentes induzidas por reprogramação genética (também conhecidas como iPS, em inglês). Ao contrário do que andam divulgando por aí, essas não são células-tronco adultas ou maduras – são bem parecidas com as embrionárias, por sinal. E, justamente por serem similares, os poucos grupos de pesquisa que estão conseguindo desenvolver células iPS são grupos que possuem experiência prévia com as embrionárias humanas. Ou seja, para se chegar nas iPS é preciso cultivar as células-tronco embrionárias humanas antes. Mas não se iluda, leitor, as iPS só foram descritas há pouco mais de dois anos e se tiver que surgir um produto terapêutico derivado de células-tronco pluripotentes, esse será derivado das embrionárias humanas.

Concluindo, esse é apenas o começo de uma longa jornada de descobertas científicas em que o Brasil tem um enorme potencial de se tornar um importante contribuinte. A comunidade científica deve sim comemorar essa conquista, junto com milhares de pacientes com doenças incuráveis e seus familiares. E a população brasileira deve ficar orgulhosa desse resultado, pois o Brasil optou pelo conhecimento. Tenho esperança de que um dia conseguiremos achar a cura para uma série de doenças humanas, e o melhor modelo atual são as células-tronco embrionárias. Enquanto não chegamos lá, vamos aprender o máximo sobre essas doenças e buscar alternativas para uma melhor qualidade de vida dos portadores.

Alysson Muotri é pesquisador do Instituto Salk, em La Jolla (Cafifórnia), e colunista do G1.

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