Drauzio Varella: O sexo e a morte - Diabetes, Vida e Comunidade

Drauzio Varella: O sexo e a morte

11/06/2008 - Gazeta Digital


Dizemos que para morrer, basta estar vivo. Parece verdade universal, mas está longe de ser: a morte não é companheira inseparável da vida, existem seres imortais e são muitos. Essa é uma das afirmações mais importantes da Biologia. É o caso das bactérias, formas de vida constituídas por uma única célula capaz de captar nutrientes do meio, convertê-los em energia para exercer suas funções metabólicas fundamentais, e multiplicar-se. Elas foram a primeira manifestação de vida organizada na Terra - surgiram há mais de três bilhões de anos - e estão aí até hoje. As bactérias são em média 50 vezes menores do que nossas células e 70 vezes maiores do que os vírus. Para reproduzirem-se, simplesmente se dividem em duas células-filhas. Na divisão, fazem uma cópia de seus 5 mil a 10 mil genes arquivados na molécula de DNA, adquirem o formato de um 8 e se separam em duas células iguais (descontadas as mutações), que darão origem a quatro, oito, dezesseis, etc. Funcionam como máquinas de duplicar DNA, em condições favoráveis conseguem multiplicar-se a cada 12 a 20 minutos.

Embora possam morrer acidentalmente por inanição ou por variações abruptas da composição do meio, mantidas as condições ambientais e o acesso a nutrientes, a divisão celular não pára. Nesse caso, será possível afirmar que a bactéria-mãe que se dividiu em duas morreu? Ou que suas quatro netas ao darem origem a oito filhas deixaram de estar vivas? Ou, ainda, numa comparação antropocêntrica, se eu pudesse me dividir assexuadamente em duas réplicas idênticas, seria possível dizer que morri? Nesse caso, onde estaria meu cadáver?

A morte não é fenômeno biológico obrigatório nas formas de vida unicelulares que se reproduzem de forma assexuada. Esse fato adquire maior relevância se lembrarmos que os seres unicelulares constituem mais de 50% da biomassa terrestre.

Na Terra, a morte como parte de um programa celular obrigatório surgiu há pouco menos de um bilhão de anos, com o advento do sexo. Foi o aparecimento dos seres multicelulares e sua forma particular de formar descendentes a partir da combinação de genes femininos e masculinos, que inventou a morte inevitável. Na evolução, a estratégia da divisão simples adotada pelas bactérias traz a desvantagem da identidade genética. Apesar das mutações espontâneas ou adquiridas, as células-filhas apresentam genes muito semelhantes aos das mães, e qualquer evento letal para um indivíduo pode levar a espécie à extinção. A multicelularidade emergiu como estratégia mais versátil para enfrentar variações das condições ambientais, por oferecer algumas vantagens:

1) Maior diversidade genética entre os descendentes;

2) Possibilidade de elaboração de funções orgânicas mais complexas;

3) Capacidade de atribuir funções específicas a cada tipo de célula somática (respiração, digestão, etc.);

4) Criação de células germinativas especialmente encarregadas da reprodução.

Enquanto as células germinativas carregam apenas a metade dos genes do indivíduo - que se juntarão à metade derivada do sexo oposto, na fecundação - cada uma das demais células (somáticas), encarregadas de todas as funções não reprodutivas, contém todos os genes do organismo. Como cada célula somática carrega em seu núcleo o repertório completo dos genes do organismo, sua função será estabelecida silenciando alguns genes e exprimindo outros. Uma célula do pâncreas exprime o gene que controla a produção de insulina e silencia o responsável pelo controle da produção de hemoglobina, por exemplo, enquanto um glóbulo vermelho do sangue faz o oposto.

É evidente que não podemos dizer qual dos dois tipos de células, somáticas ou germinativas, tem maior importância para a espécie: sem células germinativas não há reprodução e sem as somáticas não existiria o corpo. Do ponto de vista da evolução, no entanto, a única função do corpo é otimizar a sobrevivência do organismo para enfrentar a seleção natural e assegurar o cumprimento da função reprodutiva das células germinativas.

Generalizando a observação do biólogo inglês Richard Dawkins de que uma galinha é a melhor forma que o ovo encontrou para fazer outros ovos, podemos dizer que o corpo de um ser multicelular nada mais é do que a expressão de uma fórmula que as células germinativas engendraram para garantir sua propagação às gerações futuras. Crescei e multiplicai-vos é o mandamento supremo da vida na Terra e onde quer que ela venha a ser encontrada.

A Comunidade DiabeteNet.Com.Br tem como finalidade informar e interagir com os seus usuários. Antes de qualquer decisão ou atitude, é indispensavel a discussão sobre os pontos aqui abordados juntamente com médicos de sua confiança.

Dê sua opinião sobre este conteúdo

Nuvem de tags deste conteúdo

Comentários sobre este conteúdo

Seja o primeiro a comentar este conteúdo!

Cadastre seu comentário!


Surgyplast


Artigos
  • Pesquisa
  • Associe-se
  • Fórum

Acompanhe nosso arquivo de conteúdo:

» « Novembro - 2017
D S T Q Q S S
   1234
567891011
12131415161718
19202122232425
2627282930  

© Copyright 1997-2017 - e.Mix

As informações apresentadas a você pelo DiabeteNet contém informações gerais.
Nenhuma informação deve ser interpretada como tratamento, diagnósticos, conselhos médicos e não deve substituir a orientação do seu Médico.