Atletas de fim de semana, Luiz Carlos Bodanese*

10/1/2010 - Clic RBS

O estilo de vida tem sido associado, em diferentes estudos observacionais, a repercussões na saúde, seja na qualidade de vida ou na manifestação de eventos cardiovasculares que comprometem o trabalho, antecipam aposentadorias e induzem a mortes prematuras. Os momentos de lazer ou de férias propiciam excelente oportunidade para refletirmos sobre nossa condição de vida e saúde, a fim de corrigirmos eventuais fatores que possam comprometer o estilo de vida que, via de regra, apresenta, entre suas principais características, sedentarismo, excesso de peso, consumo exagerado de álcool e a tensão emocional exacerbada. O que se observa no mundo real, em um expressivo número de pessoas, é a busca da restauração de atitudes e práticas esportivas sem critérios adequados à promoção e prevenção da saúde.

No intuito de recuperar as energias consumidas durante o ano de trabalho árduo e desgastante e descontrair as tensões acumuladas, com muita frequência observa-se neste período de férias a mobilização das pessoas para a prática de algum tipo de atividade física, o que é desejável, mas também o relaxamento no controle da ingestão de alimentos, o incremento no consumo de bebidas alcoólicas e a prática de esportes inadequados, o que preocupa.

Algumas normas simples permitem desfrutar este período com segurança, evitando-se colocar em risco a saúde. A primeira consideração diz respeito à participação em atividades esportivas, especialmente do grupo de pessoas que situam-se entre a terceira e quinta décadas da vida e aparentemente saudáveis. Devemos salientar que as doenças cardiovasculares são as principais causas de morte, relacionadas a vários fatores de risco, entre os quais a hipertensão arterial, aumento do colesterol total, tabagismo, diabete melito, obesidade e história familiar de doença cardiovascular precoce. A presença de um ou mais desses fatores em indivíduos com vida tensa, agitada e sedentária favorece o desenvolvimento de doença coronária ou cerebrovascular, cuja primeira manifestação pode ser um evento agudo ou morte súbita de causa cardiovascular, resultante de um esforço súbito e intenso para o qual o indivíduo não está preparado.

Assim, na tentativa de recuperar o tempo perdido, uma atividade física intensa e prolongada – futebol na areia, por exemplo – pode precipitar complicações cardiovasculares súbitas, até mesmo com risco de morte, ou favorecer a ocorrência de lesões musculares e esqueléticas, distensões musculares, entorses e luxações. De maneira geral, caminhar, andar de bicicleta ou nadar, respeitando-se os limites estabelecidos pela capacidade física individual, o que na prática significa realizar atividades que não resultem em falta de ar, fadiga ou cansaço muscular exagerado, são recomendadas, seguras e bem toleradas. Para os sedentários, que apresentam história familiar de doença cardiovascular e que são portadores de um ou mais fatores de risco acima referidos, é prudente que se realize avaliação médica para determinar o perfil de risco e programar as atividades físicas adequadas, considerando-se a intensidade e a frequência com que devem ser executadas.

Outro aspecto a ser salientado é o abuso de sal, álcool, gorduras animais e fumo em comemorações próprias da época, importantes fatores de desequilíbrio para pessoas que se encontram em tratamento medicamentoso ou que estão estáveis apenas com medidas dietéticas. Essas liberalidades podem resultar no aumento da pressão arterial, dos níveis de glicose e gorduras sanguíneas e em ganho de peso, podendo ocasionar transtornos que exijam atendimento médico de urgência e, até mesmo, necessidade de internação hospitalar. Um agravante importante é a irregularidade ou supressão de medicamentos de uso rotineiro, pelo temor de reações adversas ou efeitos colaterais por ocasião da ingestão simultânea de bebidas alcoólicas, por exemplo. Nestes casos, orienta-se não suprimir a medicação em uso e moderar não apenas o álcool, mas também ter cuidados com o consumo de sal, gorduras animais e, para os pacientes diabéticos, atenção especial para o consumo de açúcar e doces. Portanto, se é desejável que todos tenham um período de férias para recompor as energias, também é recomendável que se considere esta época para uma readequação no estilo de vida, com qualidade e segurança. A observância de alguns critérios simples e práticos promove e protege a saúde, nosso maior patrimônio.

*Chefe do Serviço de Cardiologia do Hospital São Lucas da PUCRS e professor da Faculdade de Medicina da PUCRS

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