Adoçantes dietéticos - Diabetes, Vida e Comunidade

Adoçantes dietéticos

29/10/2001 - Estadão


Há duas décadas atrás, por volta dos anos 80, o consumo de adoçantes dietéticos no Brasil limitava-se à portadores de diabetes, que necessitavam restringir o consumo de açúcar. Entretanto, nos últimos cinco anos o mercado de adoçantes no nosso país triplicou, impulsionado por um grande número de consumidores cada vez mais preocupados com a saúde e com o impacto que uma dieta rica em açúcar tem sobre a qualidade de vida.



A invasão das prateleiras de produtos dietéticos e light tem sido tão intensa, que inúmeras dúvidas acabam surgindo entre as pessoas, tal é a ampla gama de tipos e marcas de adoçantes comercializados. Além disso, muitas controvérsias ainda existem com relação à segurança de uso dessas substâncias. Embora muitos estudos mostrem não haver qualquer efeito prejudicial, os adoçantes ainda despertam dúvidas e calorosas discussões entre os pesquisadores.



O adoçante dietético é produzido a partir de edulcorantes, substâncias naturais ou artificiais responsáveis pelo sabor doce. Eles possuem um poder de adoçamento muitas vezes muito maior que o açúcar de cana (açúcar comum) e são recomendados para dietas especiais como as de restrição (principalmente no diabetes) e de emagrecimento.



Embora exista atualmente uma ampla variedade de adoçantes como o ciclamato, a sucralose, o acessulfame-K, o steviosídeo, entre outros, parece que a sacarina e o aspartame são os preferidos de grande parte dos consumidores.



A seguir, uma relação dos principais tipos de adoçantes encontrados no mercado, com suas respectivas características:



1. Ciclamato



O ciclamato é um adoçante sintético, não calórico, que foi descoberto em 1940, a partir de um derivado do petróleo, o ácido ciclo hexano sulfâmico. Com um poder adoçante que supera em 30 vezes o da sacarose (açúcar comum), o ciclamato hoje é permitido no Brasil, Estados Unidos, Canadá e em mais de quarenta países, embora tenha sido há alguns anos atrás banido em certos países, depois que alguns estudos o associaram ao aumento do risco de câncer de bexiga em ratos. Apresenta um sabor próximo do açúcar, mas com residual amargo. É um dos adoçantes mais baratos do mercado e é muito utilizado pela indústria, principalmente de refrigerantes dietéticos. Deve ser evitado por hipertensos, já que costuma aparecer na forma sódica, ou seja, combinado com sódio.



2. Sacarina



A sacarina é o adoçante artificial não calórico mais antigo que existe. Sua descoberta ocorreu em 1879 e sua utilização ocorre desde de 1900. Também extraída de um derivado do petróleo, o ácido sulfanoilbenzóico, apresenta um poder adoçante 200 a 700 vezes maior que o açúcar da cana (sacarose). Sozinha, em altas concentrações, a sacarina tem gosto residual amargo e metálico e, por isso, é normalmente associada ao ciclamato. No nosso organismo ela é absorvida lentamente, mas não é metabolizada, sendo excretada de forma inalterada pelo rim. Sua maior qualidade é o fato de ser estável a altas temperaturas, podendo ser utilizada em preparações quentes.



Apesar de altas doses de sacarina terem sido associadas ao aumento da incidência de câncer de bexiga em ratos, esses resultados foram reavaliados e os novos estudos indicam que os tumores em ratos crescem devido a mecanismos que não são relevantes para as condições humanas. Por isso, o governo americano retirou oficialmente a sacarina da lista de agentes cancerígenos.



3. Aspartame



O aspartame é um adoçante não calórico artificial, descoberto em 1965. Obtido a partir de dois aminoácidos naturais presentes em vários alimentos, o ácido aspártico e a fenilalanina, o aspartame talvez seja o adoçante mais apreciado devido ao seu sabor bastante parecido com o açúcar, sem apresentar residual amargo. Com um poder de doçura 60 - 200 vezes maior que o da sacarose, o aspartame perde sua doçura quando submetido a altas temperaturas. Por isso, sugere-se que seja utilizado em alimentos e líquidos após a retirada do fogo. É contra-indicado para os portadores de fenilcetonúria (incapacidade do organismo de metabolizar a fenilalanina), uma anomalia rara que geralmente é diagnosticada no nascimento ( teste do pezinho). Pelo mesmo motivo, também desaconselha-se o uso por grávidas.



Ultimamente, algumas discussões a respeito do uso deste adoçante tem surgido no meio científico e na imprensa, gerando controvérsias. Notícias associando o uso do aspartame ao aparecimento de tumores, mudanças de humor, perda de memória entre outros malefícios tem assustado as pessoas. Entretanto, não existem comprovações científicas até o momento de que o aspartame cause qualquer anomalia. Os estudos mostram que somente um consumo muito além do normal poderia provocar efeitos no sistema nervoso. Por isso, a Organização Mundial da Saúde (OMS) sugere uma quantidade limite de ingestão, e isso vale para qualquer adoçante artificial.



Embora até o momento os estudos mostrem que o aspartame é seguro para consumo, cientistas mais desconfiados continuam pesquisando a relação do consumo sem controle do aspartame com câncer no cérebro, útero, ovário e no pâncreas. Com relação aos efeitos negativos do produto sobre a memória, alguns estudos estão sendo conduzidos para demonstrar que o aspartame, depois de metabolizado no organismo, se transforma em metanol, substância tóxica que pode afetar o cérebro, mesmo em pequenas quantidades.



4. Acessulfame –K



Descoberto em 1967, o acessulfame foi aprovado pelo FDA- Food and Drug Administration em 1988 para uso em bebidas, sobremesas, gomas de mascar e adoçantes de mesa. O acessulfame- K é um sal de potássio sintético produzido a partir de um ácido da família do ácido acético. Com um poder de doçura 180 a 200 vezes maior que o açúcar, esse adoçante tem um sabor residual semelhante a glicose. O organismo o absorve mas não o metaboliza, o que significa que é eliminado tal como é ingerido. É um adoçante considerado totalmente seguro e por ser estável a altas temperaturas facilita sua utilização em preparações forno e fogão..



5. Sucralose



Adoçante sintético obtido a partir da cloração da sacarina. Apresenta um poder adoçante 600 vezes superior ao açúcar, resistindo muito bem às altas temperaturas, não possuindo sabor residual amargo. Seus efeitos não são plenamente conhecidos no organismo, embora se saiba que é atóxica à reprodução e ao crescimento de crianças. O FDA / EUA ainda não deu um parecer final sobre esse adoçante.



6. Steviosideo



Adoçante natural descoberto em 1905, extraído da stévia, uma planta originária da Serra do Amanbaí, na fronteira do Brasil com o Paraguai. É muito consumido no mundo oriental, principalmente no Japão. Seu poder adoçante é cerca de 200 a 300 vezes maior que o da sacarose, sendo o único adoçante de origem vegetal produzido em escala industrial. É totalmente atóxico e seguro ao organismo, mas seu uso é pequeno devido a um sabor residual amargo que possui.



7. Xylitol, sorbitol e manitol



Esses adoçantes obtidos pela redução da glicose (sorbitol) e frutose (manitol) e também pela hidrogenação da xilose (xylitol) tem sido amplamente empregados pela indústria na produção de goma de mascar e balas, já que não causam cáries. São adoçantes calóricos sendo que cada grama contém 4 kcal.



A dose certa



Os adoçantes são seguros se utilizados na dose correta, de forma não exagerada. Como eles possuem um poder de doçura maior que o açúcar, pequena quantidade é o suficiente para dar sabor a alimentos e bebidas. Deve ficar claro também que crianças não devem usá-los; a lactose presente no leite (açúcar do leite) e a frutose das frutas e sucos garantem um bom suprimento de carboidratos às crianças.



A Organização Mundial da Saúde (OMS) sugere uma quantidade limite de ingestão dos adoçantes artificiais, sendo que o cálculo deve ter por parâmetro o peso corporal da pessoa. Veja, a seguir, a recomendação máxima diária de acordo com a OMS:



Recomendação máxima diária de adoçantes



Para obter o valor diário (máximo) recomendado basta multiplicar o valor abaixo pelo seu peso



Edulcorante Limite (mg/kg)
Acessulfame K15
Aspartame 40
Ciclamato 11
Sucralose 15
Sacarina 5
Stévia 55
Xylitol, Manitol, Sorbitol 15



Dicas para consumir adoçantes corretamente



Evite ingerir um excesso de produtos diets (gelatina, pudins, refrigerantes, etc).



Dê preferência a sucos de frutas naturais com pouco ou nenhum açúcar ou mesmo doces contendo pouco açúcar.



Utilize os adoçantes para substituir o açúcar sempre com moderação.



Consuma vários tipos de adoçantes (rodízio), inclusive os que são novos no mercado, autorizados pela legislação. Se possível, utilizá-los combinados, já que assim, eles possuem maior doçura e por isso consegue-se reduzir a quantidade de uso (ex: ciclamato com aspartame; ciclamato com estévia).



Não use aspartame em alimentos quentes, pois além de haver uma perda da doçura, é possível que haja a formação de substâncias tóxicas.
O uso de qualquer adoçante dietético deve ser proibido às mulheres grávidas e lactantes. Para crianças obesas, use com muita moderação.
Lembre-se que todo excesso traz prejuízos à saúde. Assim, adoçantes dietéticos não fogem à regra e portanto devem ser consumidos com moderação.







A pesquisadora Jocelem Mastrodi Salgado é professora titular de Nutrição Humana da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiróz, a USP de Piracicaba. Como especialista, escreve regularmente nesse espaço sobre temas ligados à saúde e alimentação. Jocelem é conhecida por suas pesquisas na área de alimentos funcionais e por suas receitas para prevenção e redução de doenças. É a criadora de compostos para reeducação alimentar e equilíbrio do organismo conhecidos como Sanavita e Suprinutri. Atualmente, suas pesquisas estão voltadas para os benefícios da soja e do feijão guandu. Informações sobre seus trabalhos podem ser obtidas pelo 0800-554414 ou pelo e-mail jmsalgad@esalq.ciagri.usp.br


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