Médicos discutem riscos e benefícios da cirurgia da obesidade

27/2/2010 - Gazeta Web


Uma pergunta cruel transformou Brittany Caesar em uma pioneira da medicina: “Por que você come tanto? Não é normal.” Naquele momento, ela estava na cantina da escola fundamental de Campbell, nos Estados Unidos, preparando-se para o almoço de costume: dois cheesebúrgueres, duas porções de fritas e uma Coca-Cola. Ela sabia que estava pesando demais. Toda sua família pesava demais, mas seu mundo girava em torno da comida e ela era incapaz de imaginar outro tipo de existência. “Minha melhor amiga era a comida, ela estava sempre ao meu lado”, confessa. Porém, em 2003, a provocação de um colega conseguiu magoá-la de maneira mais profunda que as costumeiras piadas sobre sua obesidade. Ela correu para o banheiro aos prantos, com o firme desejo de emagrecer. Sua salvação demorou mais de um ano para chegar, mas aos 14 anos os médicos do Hospital Infantil do Texas decidiram realizar uma cirurgia bariátrica (mais conhecida como cirurgia de redução do estômago), deixando seu estômago do tamanho de um ovo. No dia da cirurgia, ela pesava 183 quilos. Hoje, Brittany Caesar está com 20 anos e pesa 80 quilos. Ela foi a primeira adolescente a passar por uma cirurgia bariátrica no Hospital Infantil do Texas, sendo desde então seguida por vários outros. Atualmente, o hospital conta com um dos departamentos mais concorridos de cirurgia bariátrica para adolescentes nos Estados Unidos, realizando de uma a duas cirurgias por mês. Muito embora este procedimento ainda esteja em fase experimental para jovens e crianças, ele vem se transformando em uma frente de batalha contra a obesidade infantil. “Sinceramente, acredito que daqui a 5 ou 10 anos veremos o mesmo número de crianças passando por procedimentos para perder peso quanto adultos”, afirma o Dr. Evan Nadler, diretor adjunto do Instituto para a Obesidade do Centro Médico Infantil de Washington. Porém, muitos médicos ponderam que as pesquisas ainda precisam estabelecer se esses benefícios imediatos adquiridos com a cirurgia justificam a alteração do sistema digestivo de uma criança, o que geralmente ocorre para toda a vida. “É impossível saber qual será o resultado”, explica o Dr. Edward Livingston, diretor do departamento de cirurgia endócrina e gastrintestinal do Southwestern Medical Center da Universidade do Texas, em Dallas. “Fala-se do benefício adquirido com a prevenção de uma doença crônica que os jovens possam sofrer mais tarde. No entanto, alguns deles voltarão a ganhar peso e alguns sofrerão complicações no longo prazo, mas só descobriremos isso mais tarde.” Não se sabe exatamente quantos adolescentes têm recorrido às cirurgias de emagrecimento. Um estudo publicado em 2007 relata que a cirurgia bariátrica em adolescentes é relativamente rara, porém vêm crescendo rapidamente: de 2000 a 2003 (último ano de análise), o número de operações triplicou, alcançando a marca de 800. Não há motivo para pensar que esta trajetória tenha mudado. Para citar um exemplo, no mês passado, o setor bariátrico do Rose Medical Center, em Denver, lançou um programa para adolescentes. O fabricante do Sistema Lap-Band – uma banda gástrica ajustável que serve como alternativa para o desvio gástrico – aguarda a aprovação da FDA (Agência de Alimentos e Medicamentos dos Estados Unidos) para uso pediátrico. A licença irá permitir que o dispositivo seja comercializado para o uso em adolescentes e facilitará o reembolso das despesas médicas. Na forma de um minúsculo tubo interno que envolve um balão, o Lap-Band pressiona a parte superior do estômago, restringindo a quantidade de alimento a ser ingerida. O desvio gástrico (by-pass) também reduz a capacidade do estômago e desvia o alimento na primeira parte do intestino delgado, para que sua absorção seja reduzida. Nos últimos quatro meses, surgiram as pesquisas científicas mais abrangentes sobre esses métodos empregados em jovens e crianças, sendo que apenas algumas delas acompanharam os pacientes por mais de dois anos após as cirurgias. Esses dados oferecem motivos de estímulo e também de precaução, pois durante o primeiro ano os jovens tendem a perder muito peso. Porém, assim como ocorre com os adultos, essa perda pode desacelerar com o passar do tempo e o índice de massa corporal do segundo ano normalmente se nivela acima do normal. Um estudo recente foi publicado na revista científica da Associação Médica Americana (AMA). Pesquisadores australianos acompanharam 50 adolescentes, sendo que a metade deles frequentou um programa intensivo de mudança de estilo de vida, enquanto que a outra metade passou por uma cirurgia bariátrica de banda gástrica. Após dois anos, o grupo que passou pela cirurgia havia perdido mais peso: de um total de 25, 21 jovens perderam mais da metade do sobrepeso. Entre os que não passaram pela cirurgia, a taxa de perda de sobrepeso foi de 3 em 25. Há outras descobertas recentes que apresentam resultados semelhantes, embora tais estudos não incluam grupos de comparação. Em novembro, uma equipe de pesquisadores do Hospital Infantil de Cincinnati mostrou os resultados do mais amplo estudo contínuo sobre cirurgias de banda gástrica em adolescentes, um ensaio clínico patrocinado pelo governo americano em diversos locais, inclusive em Houston. Entre os 83 pacientes acompanhados por aproximadamente dois anos, o índice médio de massa corporal diminuiu de 60 para 40, seis meses após a cirurgia (para obter um IMC de 40, um jovem de 14 anos, com 1,65 m de altura, deve pesar cerca de 106 quilos). Após dois anos, a média ainda permanecia próxima de 40. “Eles atingem um patamar que ainda é mais alto do que o normal, porém abaixo da zona de perigo”, relata o Dr. Thomas H. Inge, diretor do programa de cirurgia para perda de peso do hospital. As crianças obesas podem sofrer de vários problemas que são mais conhecidos em adultos: resistência à insulina, pressão alta, gordura no fígado, espessamento do lado esquerdo do coração, além de depressão. Até o momento, as pesquisas revelam que o corpo volta a ser reparado durante a perda de peso. Por exemplo: dois anos após a cirurgia de banda gástrica, o lado esquerdo do coração começa a voltar ao normal na maioria dos adolescentes, segundo os cardiologistas do hospital de Cincinnati. Uma pesquisa também demonstrou que durante o período em que os jovens receberam acompanhamento, o procedimento pareceu seguro e entre 85 a 90 por cento dos adolescentes mantiveram sua perda de peso inicial, afirma o Dr. Inge. Entretanto, alguns médicos, como o Dr. Livingston, acreditam que os defensores da cirurgia estão tirando conclusões apressadas. Ninguém pode dizer se, com o passar do tempo, as mudanças serão convertidas em benefícios à saúde. O Dr. Livingston observa que um terço dos jovens da pesquisa de banda gástrica na Austrália precisou voltar à mesa de operações devido a problemas com o dispositivo – e que mesmo os jovens do grupo que não passaram pela cirurgia apresentaram uma melhora considerável na pressão sanguínea e na resistência à insulina, entre outros fatores. Independente da cirurgia, disse ele, “os dois grupos apresentaram melhoras.” Os cirurgiões também não chegaram a um acordo sobre qual dos procedimentos mais utilizados – banda ou desvio gástrico – é o mais apropriado para os pacientes jovens. O Dr. Nadler, do hospital Children’s National Medical Center, prefere a banda gástrica ajustável, por ser menos radical e pela facilidade de reversão, quando necessária. Em novembro, ele publicou um estudo na revista da American College of Surgeons com 41 adolescentes, que receberam a banda gástrica e foram acompanhados por dois anos. Em média, o sobrepeso caiu pela metade e outros fatores de saúde também mostraram uma evolução positiva. No entanto, outros médicos não admitem tanta certeza. A banda é um dispositivo artificial que pode ser implantado para a vida inteira. Por esta razão, ela apresenta o risco de formação de cicatrizes e mau funcionamento, afirma a Dra. Mary L. Brandt, cirurgiã pediátrica responsável pelo programa em Houston. “Não é possível oferecer uma garantia de 70 anos”, afirma ela. Seja qual for o método, os pesquisadores temem que a popularização das cirurgias de perda de peso entre jovens faça com que os médicos operem pacientes que não necessitem de cirurgia – tentados por um mercado lucrativo ou motivados pelo sincero desejo de ajudar. O Dr. Nadler diz que estas preocupações se referem em especial às bandas gástricas, que aparentemente são mais benignas. Caso recebam a aprovação da FDA, alguns médicos “podem começar a implantá-las em quem não precisaria delas, pois não há o devido aconselhamento”, avisa ele. “Você verá os cirurgiões que operam adultos fazendo o mesmo com jovens de 16 ou 17 anos, pois o procedimento em si é o mesmo.” Mas os pacientes são diferentes. Eles ainda não têm maturidade física ou emocional. Para a maior parte das pesquisas científicas, as equipes cirúrgicas exigem que os menores recebam aconselhamento durante vários meses, para que compreendam que seus sistemas digestivos, bem como suas dietas, serão alterados – para sempre. Brittany Caesar precisou esperar um ano até que a equipe médica permitisse uma cirurgia bariátrica. Já a Dra. Brandt estima que seu hospital tenha recusado 9 de cada 10 pedidos de cirurgia em adolescentes obesos, devido a dúvidas em relação à sua capacidade de seguir o tratamento. “Se não seguir as regras de pós-operatório, você pode morrer”, afirma ela. O que preocupa a Dra. Brandt é que mesmo se sua equipe recusar, outras aceitarão, especialmente porque os pais têm solicitado cada vez mais esta cirurgia para seus filhos. No mês passado, uma mãe telefonou para seu consultório e solicitou uma banda gástrica para sua filha de 8 anos. Pedidos como este deixam a Dra. Brandt insegura em relação ao futuro. Ela diz que certas vezes sente repulsa em realizar cirurgias bariátricas, quando observa tantas crianças sendo criadas à base de alimentos ricos em calorias e pouco nutritivos. “Essas crianças estão morrendo”, diz ela. “Nós criamos algo em nossa sociedade que precisa ser desfeito.” Ela olha para Brittany Caesar – que sonha em se tornar enfermeira – e afirma que o desvio gástrico é um dos procedimentos mais gratificantes de se realizar. Já Brittany adora seu corpo mais esguio e prevê uma história diferente para a família que pretende construir um dia. “Eles servem batata rosti para as crianças como se fosse salada”, diz ela, balançando a cabeça. “Não deixarei que meus filhos passem por isso”.
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