Leomélia de Carvalho - Diabetes, Vida e Comunidade

Leomélia de Carvalho

28/06/2002 - DiabeteNet


"...Sou portadora de Luxação Congênita Bilateral detectada tardiamente. Quando comecei a andar minha mãe achava que eu tinha o "andar de pato Donald", o pediatra, na época ignorou do que ela falava e não deu a menor importância..."

Sou a primeira filha de uma mãe espetacular e hoje, tudo que sou devo a ela e a meu pai que foram pessoas muito sábias pela criação que me deram.

Sou portadora de Luxação Congênita Bilateral detectada tardiamente. Quando comecei a andar minha mãe achava que eu tinha o "andar de pato Donald", o pediatra, na época ignorou do que ela falava e não deu a menor importância. Como era muito danada, brincava de dia, e por ter dores, chorava de noite.

Então minha mãe resolveu pedir a opinião de um outro médico que sugeriu que ela procurasse um ortopedista. Prosseguindo com todos os exames necessários, foi detectado então meu problema. Nessa época, meus pais tinham uma boa situação financeira e optaram por iniciar meu tratamento no Rio de Janeiro, pois somos do Ceará onde meus pais vivem até hoje.
Com dois anos e seis meses fiz minha primeira cirurgia nas duas pernas, uma ficou bem mas a outra, teimosa, continuou apresentando problemas. Problemas estes, que me fizeram passar por mais quatro cirurgias, que obrigavam minha mãe sair de sua casa de perto de seu marido para estar comigo durante meses e meses entre o Rio de Janeiro e São Paulo (onde fiz as duas últimas cirurgias).

Foi uma infância diferente, mas para os outros pois pra mim estava tudo sempre bem... Na sala de minha casa, além do sofá e cadeiras havia uma cama, onde eu passava o dia inteiro a fim de não ficar trancada no quarto e não participar do movimento da casa, falava minha mãe. Quando dava ía ao colégio onde assistia aula em cima das carteiras, pois o gesso não me deixava sentar, quando não, minha mãe passava horas e horas comigo para que eu aprendesse com ela o meus colegas estariam aprendendo na Escola.

Hoje minha mãe conta que, estando longe de casa as vezes tinha vontade de me jogar pela janela e depois se jogar também... mas sempre pensava que aquilo tudo iria acabar... aí desistia.

E assim foi, quando eu estava aprendendo a andar, fazia mais uma cirurgia, e entre muita natação, fisioterapia tive que aprender a andar várias vezes...

Pra minha mãe, eu tinha que ser a melhor aluna da classe, a mais inteligente, a mais desinibida, e em hipótese alguma eu podia me sentar numa cadeira de rodas nem segurar muletas. Pra ela, a dúvida de se um dia eu andaria sozinha, nunca existiu, pra ela era só questão de tempo.
Uma vez, eu engessada do dedão do pé até abaixo dos seios, deitada na cama, ganhei de Natal uma bicicleta, "é pra quando você estiver andando minha filha, e tem que ser sem rodinhas!" dizia meu pai. Lembrando e analisando esses fatos vejo hoje que realmente pra eles nunca houve nenhuma dúvida de que eu teria uma vida completamente normal.

A persistência e a paciência de minha mãe é que não eram normais, e as vezes chegava até a ser dura, o que pra ela deveria ser muito difícil... Quando pedia alguma coisa, ela falava: "- Vá você mesma buscar, segure nas paredes e nos móveis, se você cair, me chame que vou te levantar." E assim o tempo passou... nunca minhas coleguinhas de colégio me trataram mal (e olha que eu usava um aparelho na perna inteira e botas), e minha alegria e modo de agir também nunca me deixaram sentir-me constrangida em fazer qualquer coisa. Tive uma adolescência deliciosa, fazia curso de inglês (fazia questão de ir de ônibus sozinha, e minha mãe com o coração na mão nunca impediu), ía às festinhas, ao Shopping, tinha até paquerinhas. Com 16 anos tive meu primeiro namorado, que andava comigo como se estivesse carregando um troféu, fez com que eu me sentisse uma mulher realmente igual a todas as outras. Depois dele, houveram outros, mas ele me marcou muito pelo jeito que me tratava. Aos 18 anos, tirei minha carteira de habilitação, passei por uma bateria de testes e consegui visto para dirigir carros normais sem adaptação, aos pouco minha vida se tornava uma vida comum, igual a todas as meninas da minha idade e só eu e minha família sabíamos o gostinho especial de tudo isso!

Cresci e amadureci, e como nunca perdi nenhum ano na Escola e acabei o Científico com 17 anos. Mais tarde, passei no vestibular em terceiro lugar e entrei na Faculdade de Administração de Empresas, e me formei aos 25 anos. Nessa época, um pouco antes de me formar, tive dificuldade em conseguir estágios e empregos, depois de muito correr atrás, um dia acordei e ví que tal dificuldade se devia a minha perna, aquilo me incomodou, mas sempre tive na cabeça que, como existem pessoas más também existem pessoas boas e que com empresas não seria diferente... E não foi! Dias antes da minha formatura recebi um telefonema falando que havia sido aprovada para um projeto de treinamento pra futuros Gerentes na maior rede de Drugstores (em número de lojas) do Brasil. E assim conquistei meu primeiro emprego! Só eu e Deus sabíamos o que ele representava pra mim! Acho que uma grande conquista após uma vida inteira de pequenas conquistas! Alguma coisa me fazia ter certeza que ía dar tudo certo!

Hoje, após quatro anos e meio de formada, estou em uma outra rede de Drogarias, por causa desse novo emprego tive que mudar-me de Fortaleza para Belo Horizonte. Vim sozinha, pois não tinha nem parentes nem amigos aqui, só tinha uma imensa vontade de vencer e de conquistar mais um desafio e a coragem que minha mãe me passou a vida inteira! Com quase um ano morando em Belo Horizonte, tenho me adaptado bem, também conquistei um companheiro e vivemos juntos. É uma pessoa que me trata como meus pais faziam e de certa forma acho que também tem orgulho de estar ao meu lado. Filhos? Ainda é cedo, preciso estudar ainda mais... mas não estão fora dos meus planos, aliás é mais um outro sonho que correrei atrás daqui a algum tempo.

Gostaria de destacar em meu depoimento, a importância de que, sermos tratados iguais deve começar EM CASA. É isso que vai fazer a diferença. Os pais tem na mão o direito de decidir se vão fazer de seus filhos portadores de deficiência, pessoas normais, fortes, donas de seus destinos ou pessoas fracas, medrosas e sem destinos! Nós deficientes somos frutos dessa criação e nosso futuro depende disso!

Senhores pais, não façam de seus filhos pessoas fracas, tenham com eles a atenção e o carinho necessário mas exijam deles também, como podemos cobrar da sociedade a não discriminação se ela, na maioria das vezes começa no lar?

Será um prazer trocar mensagens, e-mails e experiências com pais ou com pessoas PDFs ou não.
Leomélia de Carvalho
e-mail: leomelia@araujo.com.br

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