Os passos da ciência na luta contra a diabetes - Diabetes, Vida e Comunidade

Os passos da ciência na luta contra a diabetes

09/11/2015 - Pt Euro News


Qual a melhor forma de prevenir, detetar e tratar a diabetes? Nesta edição de Futuris passamos por Dublin, na Irlanda, Oulu, na Finlândia, e Estrasburgo, em França, onde cientistas ligados a vários projetos europeus estão a desenvolver tecnologias que vão permitir ganhar alguma vantagem face a uma doença, até ver, incurável e a única não-contagiosa para a qual, salienta a coordenador de projeto do BIOSID, Séverin Sigrist, pode ser utilizado o termo “epidemia.”

É uma doença perigosa que se torna perversa porque nunca se está à espera que ela apareça

(Alain Lehmann, paciente francês de diabetes de Tipo 1)

A diabetes é a doença com mais custos para a sociedade em todo o Mundo. As complicações na diabetes são muito graves

(Seppo Kopsala, diretor executivo da Optomed Oy, na Finlândia)

O número de casos de diabetes multiplicou-se por 30 nos últimos 5 anos

(Michel Pinget, endocrinologista no Centro Hospitalar e Universitário de Estrasburgo, França)

Julián López Gómez, o enviado especial da euronews e produtor de Futuris, salienta que “a diabetes é um dos principais inimigos públicos na Europa”. “De acordo com alguns estudos, esta doença esquiva pode afetar nos dias de hoje 62 milhões de europeus — quase 18 por cento da população de todo o continente”, acrescenta.

Conscientes do risco, cientistas europeus estão a trabalhar contra o relógio para desenvolver novas ferramentas que permitam a deteção, o diagnóstico e a prevenção da diabetes.

O papel do exercício físico na prevenção

Na Irlanda, fomos ver o que está a fazer um dos parceiros do Dexlife, um projeto suportado pela Comissão Europeia que investiga a diabetes e previne a progressão de pacientes de risco de uma fase de pré-diabetes para a de diabetes de tipo 2.

Espreitámos uma exigente sessão de treino no ginásio da Universidade de Dublin, na qual participavam pessoas com um alto risco de desenvolverem diabetes de tipo 2. São voluntários num estudo que procura perceber o papel do exercício físico na prevenção da doença.

Falámos com um desses voluntários, Des Nix, que agradece a oportunidade. “Acredito que, se não estivesse a participar neste programa, já estaria gravemente doente. Ou talvez até já teria morrido ou que a minha saúde se teria agravado tanto que eu estaria todo contorcido, na cama”, garante.

Os cientistas do DexLife rastrearam a evolução fisiológica dos voluntários e confirmaram: o exercício físico regular e um estilo de vida saudável podem ajudar a prevenir o desenvolvimento da diabetes em indivíduos de alto risco.

Uma vida saudável Vs. a gordura

Na Dinamarca, as conclusões encontradas em Dublin não causaram surpresa em Christian Petersen e Lone Lindborg. Ambos foram diagnosticados com diabetes de tipo 2. Os dois partilham a própria experiência, com regularidade, numa clínica onde se encontram com pacientes recém-diagnosticados com diabetes.

Um estilo de vida saudável — garantem Christian e Lone — é a chave para manter longe a doença. Foi um choque quando fui diagnosticada. Não sabia o que fazer. Os médicos disseram-me para comer menos. Fiz algum exercício, como natação, mas, na maior parte de tempo, não fazia nada. Foi muito duro para mim”, recordou Lone.

O DexLife tem o ponto de partida no Centro de Diabetes Steno, o qual recebeu 5,5 milhões de euros para investigação. “O nosso projeto destina-se a escavar até aos níveis mais profundos da biologia da diabetes de tipo 2 para ver se conseguimos encontrar nos exames sanguíneos, ou noutro tipo de testes modificados, formas rápidas de prevenção”, explicou-nos o líder da instituição, John Nolan.

Os cientistas procuram identificar novos marcadores da diabetes para lá dos habituais níveis de glicose no sangue. Os quase três anos de trabalho em laboratório valeram a pena, garantem. “Temo-nos focado, por exemplo, na gordura. Já conseguimos identificar diversas moléculas individuais que podem antecipar o início da doença”, revelou Matej Oresic, biofísico do Centro de Diabetes Steno.

Para John Nolan, “a medicina está a passar de uma abordagem mais geral para uma muito mais personalizada”. “A minha esperança é que a nossa investigação possa, de facto, ajudar as pessoas com diabetes, ou aquelas que estão em risco de desenvolver a doença, a terem um serviço médico muito mais personalizado”, disse o CEO do centro dinamarquês.

Um “pontapé” na diabetes

Na Finlândia, Julián López Gómez conheceu os cientistas que já finalizaram uma parte do desenvolvimento de uma nova tecnologia destinada à deteção precoce da diabetes… e com ajuda dos pés.

Em Oulu, os investigadores pensam que a diabetes pode ser diagnosticada através dos olhos ou pela pele e o laboratório desenvolveu uma nova visão na deteção da doença.

Cerca de 30 por cento dos doentes de diabetes desenvolvem problemas cutâneos. Em especial, nos pés. Por isso, foi desenvolvida uma câmara especial para detetar feridas nos pés relacionadas com a diabetes, com “sensores de 5 megapixeis.”

“(A câmara) tem os nossos próprios algoritmos de imagem. Para este projeto especial, modificámos as partes óticas e de luz da câmara”, conta-nos Seppo Kopsala, engenheiro industrial e diretor executivo da Optomed Sy.

O equipamento ótico combina ultrassons com tecnologias térmicas. O objetivo é proporcionar aos médicos um conjunto completo de imagens que podem sinalizar uma fase precoce do desenvolvimento da diabetes e prevenir eventuais deficiências nos pacientes consequentes da doença.

“As diferentes cores realçam aspetos diferentes na pele dos pacientes. Ao documentarmos isto — não só com as imagens padrão a cores mas com os diferentes canais de cores em separado: vermelho, azul e verde — nós podemos destacar as alterações de forma mais precisa e com outro detalhe”, explicou-nos Seppo Kopsala.

O pâncreas bioartificial

Em Estrasburgo, França, Julián López Gómez foi descobrir o que acredita ser “a próxima grande revolução no tratamento contra a diabetes”. Neste caso, a de tipo 1. “A arma secreta? Um pâncreas bioartificial”, revela o nosso enviado especial.

Conhecemos Alain Lehmann, um diabético que vive há mais de 30 anos com a variante de tipo 1. O pâncreas de Alain já não produz insulina suficiente e esta é a hormona que regula os níveis de açúcar na corrente sanguínea.

“A minha diabetes foi diagnosticada quando cumpria o serviço militar. Foi há 36 anos, tinha eu 24, e resultou de um teste de urina. Detetaram-me demasiado açúcar no sangue e o mundo à minha volta, de certa forma, colapsou”, recordou.

Tal como outros pacientes a viver com diabetes de tipo 1, Alain Lehmann está dependente de injeções diárias de insulina para controlar o nível de glicose no sangue. É um tratamento eficaz, mas que impõe grandes limitações.

Michel Pinget, endocrinologista no Centro Hospitalar e Universitário de Estrasburgo, diz-nos que é preciso “providenciar insulina (ao paciente) como um pâncreas verdadeiro o faria se tivesse continuado a trabalhar sem problemas”. “Sabemos que o pâncreas gera muita insulina a cada refeição para armazenar a glicose contida na comida. Pelo contrário, gera menos insulina entre refeições e, em especial, durante a noite”, explica-nos este especialista em glândulas.

Produzir um pâncreas bioartificial é o objetivo dos cientistas envolvidos no BIOSID, um outro projeto médico suportado por 5,5 milhões de euros de fundos europeus. A ideia é plantar no corpo dos pacientes uma membrana biocompatível, a que os cientistas deram o nome de “MAILPAN”, repleta de células secretoras de insulina.

“O açúcar vai poder passar por esta membrana semipermeável e sinalizar a sua presença às células ali integradas. Estas células vão, então, poder criar a quantidade necessária de insulina para normalizar os níveis de açúcar no sangue”, explicou-nos Richard Bouaoun, biólogo da Defymed, uma empresa francesa de desenvolvimento de recursos bioartificiais de aplicação medicinal.

A terapia celular tem a vantagem de ser autónoma, defendem os investigadores. O sistema, no caso deste pâncreas bioartificial, ativa-se a ele mesmo quando os níveis de glicose aumentam. O principal desafio para os cientistas passa pelo aumento da sobrevivência das células terapêuticas integradas num circuito fechado.

“Precisamos de encontrar moléculas que nos possam ajudar a otimizar a presença de oxigénio dentro do pâncreas bioartificial. Depois, temos de tratar de outros problemas. Mas nenhum é tão importante como a falta de oxigénio dentro da membrana”, salienta Elisa Maillard-Pedracini, bióloga do CeeD, o centro europeu de estudo da diabetes.

Os cientistas veem a sua investigação como uma potencial e necessária alternativa ao transplante do pâncreas. “Mesmo que tivéssemos todos os pâncreas necessários para transplantes, apenas poderíamos tratar 0,01 por cento de todos os pacientes com diabetes de tipo 1 — seriam apenas 10 por cento de todos os que sofrem de diabetes”, alertou Séverine Sigrist, diretor científica do Ceed e coordenador do projeto BIOSID, concluindo: “A nossa ideia é resolver o problema com uma abordagem fisiológica ou celular e isso pode ser bom para todos.”

À espera da evolução tecnológica e dos testes clínicos, os investigadores esperam que o pâncreas bioartificial seja uma realidade antes de 2020. “Este é claramente o caminho a seguir. A doença não tem cura, mas com este sistema podemos garantir um tratamento de longo prazo e mais fácil para os pacientes. Um tratamento que pode ser também seguro e livre de efeitos secundários”, garante Michel Pinget.

Os pacientes e os indivíduos com alto risco de contrair diabetes têm esperança de que estes avanços na prevenção, deteção e tratamento possam vir a melhorar a respetiva qualidade de vida.

Fazer exercício faz-nos sentir melhor em todos os aspetos. Até em termos estéticos. Sentimo-nos de certa forma diferentes. Também perdemos algum peso, o que é benéfico. É, simplesmente, ótimo (Barbara Cahill, voluntária)

Das coisas que mais gosto de fazer é escalar uma montanha. Por isso, penso que a minha é perfeitamente normal. Acho até que a minha vida ficou melhor depois de ter sido diagnosticado com diabetes de tipo 2. Deixei de ser apenas o rapaz preguiçoso, que eu acho que era quando tinha 18 anos

(Christian Petersen, paciente de diabetes de tipo 2)

Levei quase 10 anos a aprender a lidar com a diabetes. Hoje em dia, corro muito e faço muito exercício

(Lone Lindborg, paciente de diabetes de tipo 2)

Eu corro. Eu jogo. Eu faço desporto. Seja de manhã, à tarde ou até à noite. A doença não coloca quaisquer limites à minha vida. Eu, simplesmente, não sinto qualquer limitação

(Alain Lehmann, paciente de diabetes de tipo 1)

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