O pai que criou um “pâncreas artificial” para o filho com diabetes - Diabetes, Vida e Comunidade

O pai que criou um “pâncreas artificial” para o filho com diabetes

12/05/2016 - Tecnoblog


Pessoas de todas as partes do mundo estão usando dispositivos como Arduino e Raspberry Pi para criar projetos incríveis de eletrônica, robótica, impressão 3D e afins. O que pouca gente esperava é que o movimento maker, como a cultura do “faça você mesmo” vem sendo chamada, pudesse também salvar vidas — ou mudá-las para melhor. É o caso de Jason Calabrese, engenheiro de software dos Estados Unidos que criou uma espécie de “pâncreas artificial” para o filho.

Diabetes tipo 1

O garoto, Andrew Calabrese, tem diabetes tipo 1. Nessa variedade, o sistema imunológico ataca as células do pâncreas que produzem insulina (células beta pancreáticas), hormônio responsável pelo controle da glicemia, isto é, da taxa de glicose no sangue.

Como consequência, o organismo do portador da condição não consegue transformar a glicose dos alimentos ingeridos em energia para o corpo. Isso faz os níveis de açúcar no sangue subirem após as refeições. O indivíduo pode então apresentar fraqueza, fadiga, alterações de humor, sede excessiva, entre outros sintomas. Se o diabetes não for devidamente tratado, várias complicações podem surgir: problemas nos rins, lesões nos olhos, acidente vascular cerebral e por aí vai.

Por conta desses problemas, o portador de diabetes tipo 1 precisa ter uma rotina regrada: além de seguir uma alimentação controlada, normalmente a pessoa deve receber aplicações diárias de insulina na dose estipulada pelo médico.

Dosagem: a falta faz mal; o excesso também

A questão da dosagem é mais importante do que parece. Concentrações elevadas de glicose são prejudiciais ao organismo, mas o excesso de insulina também: a pessoa pode acabar entrando em um estado de hipoglicemia (quando a quantidade de glicose no sangue fica muito baixa) que causa palpitações, fraqueza, tontura, visão embaçada, inconsciência e assim por diante.

Complicado, né? Por mais que tenha alimentação controlada e siga todas as recomendações médicas sobre uso de medicamentos e aplicação de insulina, não é raro uma pessoa com diabetes tipo 1 apresentar quadros de hipoglicemia e problemas relacionados.

Isso acontece porque muitas vezes é difícil administrar insulina na quantidade adequada para aquilo que foi ingerido. Além disso, algumas situações podem fazer o gasto de glicose ser maior do que esperado, por exemplo, quando o elevador quebra e a pessoa se vê obrigada a subir um monte de escadas.

Daí a importância de portadores de diabetes usarem medidores de glicose (como aqueles aparelhos com fitinhas): eles podem aplicar insulina se o dispositivo indicar que os níveis de açúcar estão baixos. Mas, se para um adulto já é difícil fazer esse tipo de controle, imagine para uma criança como Andrew. É por isso que o pai dele decidiu criar o “pâncreas artificial”.

O tal do pâncreas artificial

Chamar o dispositivo de pâncreas é apenas uma forma de transmitir uma noção simplificada da ideia. Não se trata de um pâncreas, de fato. O que dispositivo faz, basicamente, é medir os níveis de glicose do garoto e aplicar automaticamente uma quantidade de insulina correspondente, se necessário. Essa é uma função que cabe ao pâncreas, mas não é a única: o órgão também responde pela produção de enzimas necessárias para a digestão, só para exemplificar. A invenção de Jason não cuida dessa parte.

Seja como for, o importante é que a iniciativa tem ajudado Andrew a ter uma rotina que não difere muito da vida que seus amigos levam. Para isso, Jason Calabrese combinou um sensor subcutâneo para medir os níveis de glicose com um dosificador automático criado a partir de um modelo antigo de bomba de insulina.

Ambos os componentes são controlados com um módulo Intel Edison que roda o OpenAPS, software de código aberto desenvolvido por Dana Lewis, também portadora de diabetes tipo 1, para facilitar a criação de dispositivos que monitoram níveis de glicose e aplicam insulina.

Usando seus conhecimentos de programação e eletrônica, Jason Calabrese combinou os componentes com o software para ajustar o projeto às necessidades do filho. O sensor subcutâneo mede os níveis de glicose de Andrew a cada cinco minutos. Com base nos resultados, o OpenAPS estima a quantidade de insulina que o garoto deve receber (se necessário) e envia a instrução correspondente para o dosificador.

Essa ideia não é nova. Projetos semelhantes estão em desenvolvimento inclusive por grandes companhias, como Johnson & Johnson. O problema é que obter autorização de órgãos reguladores para a produção desses aparelhos é uma tarefa complicadíssima: se o dispositivo terá certa autonomia, é necessário garantir que não haverá medições erradas de glicose ou aplicação de doses incorretas de insulina, por exemplo.

É difícil fazer isso porque o organismo de cada pessoa tem um ritmo diferente. Mas pode apostar que dentro de alguns anos teremos dispositivos do tipo que se adaptam ao perfil de todos os pacientes. Enquanto isso, quem pode recorre a algo no estilo “faça você mesmo”. O OpenAPS mostra que há cada vez mais pessoas seguindo por esse caminho.

Pelo menos nos Estados Unidos, as leis só controlam a disponibilização de dispositivos no mercado, não o seu uso por pacientes. É por essa razão que a família Calabrese não teve problemas legais para tocar o projeto.

Não pense, porém, que Jason transformou o filho em “cobaia”. O dedicado pai faz questão de ressaltar que toma todos os cuidados devidos. Para começar, as dosagens de insulina seguem os critérios estabelecidos pelo médico do menino, que acompanha de perto todo o projeto.

Além disso, os testes começaram devagar: hoje Andrew leva o aparelho até para a escola, mas no início ela só o usava nos fins de semana e à noite. Por fim, o garoto ainda continua recebendo aplicações manuais de insulina para as principais refeições do dia.

Veja que a ideia aqui não é promover a cura do diabetes tipo 1 ou qualquer coisa parecida. É melhor que cientistas especializados no assunto corram atrás disso. Jason apenas usou as armas que tinha à disposição — a tecnologia e os seus conhecimentos de programação — para dar um pouco mais de qualidade de vida para o filho. O sorriso do garoto já diz tudo: a missão está sendo cumprida com sucesso.

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