Depoimentos

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E você ? Conhece a família do seu doador ?

22/12/2005 - Ana Paula Lima

E você ? Conhece a família do seu doador ?

Oi pessoal! Voltei para dividir com todos uma alegria que pude dar e receber.

No último dia 15 de outubro de 2005, fiz um ano e oito meses de transplante duplo e depois de um ano de espera, tive coragem de entrar em contato com a família da minha doadora.

Sei que essa notícia é de espantar, mas por um feliz erro do hospital, onde meu transplante foi feito, recebi com a sacola de meus exames, um envelope pardo com informações que acredito, não de veriam estar em nosso poder.

Dentro desse envelope estava o nome de Carine Rodrigues Pereira, 16 anos, doadora dos seguintes órgãos: córneas, coração, pulmão, fígado, pâncreas (meu órgão), rins (um também é meu) e intestino.

Nesse envelope tinha o endereço e dados pessoais do pai e da menina, que anotei, sem minha mãe saber e devolvi o envelope ao doutor Marcelo.

Quando fiz um ano de transplante, escrevi uma carta e briguei o tempo todo com os meus sentimentos quanto mandar ou não aquela carta à família, pois imaginava que ainda estariam fragilizados e conforme o que estivesse escrito, poderia piorar a situação...

Oh dúvida cruel! O que fazer com sentimentos tão confusos? Sem dúvida nenhuma essa minha decisão foi a mais difícil a ser tomada e a que mais me causou ansiedade.

Iniciei a carta contando um pouco sobre a minha vida (assim como estava no depoimento Mais uma, do Diabetenet) e logo em seguida a diferença que estava sendo vivida agora (sem crises de hipoglicemia, sem câimbras, sem convulsões, toda água que bebo uma hora sai...). Agradeci muito dizendo que o maior gesto de amor que podemos dar aos outros é a caridade e que sem dúvida nenhuma, aquele gesto foi caridoso, tanto que salvou a minha vida e deu mais tranqüilidade e qualidade de vida à minha família.

A carta queimava nas minhas mãos quando cheguei ao correio. Fiz uma coisa que jamais imaginei que fosse fazer: fui e voltei ao mesmo lugar, duas vezes seguidas e sempre que chegava ao caixa, saía da agência. Os hemisférios do meu cérebro brigavam o tempo todo, me atormentando quanto ao fato de colocar ou não, de ser bem recebida ou não, da família ainda morar naquele endereço ou não...

Finalmente, coloquei a carta e a tensão foi maior ainda. E agora? E se de repente eu mando e acontece alguma coisa? E se eles não moram mais na mesma casa?

Cinco dias depois, recebi uma carta que só acreditei que era verdadeira quando vi o carimbo e li o endereço, pois o remetente era de outra pessoa. Abri a carta e respirei aliviada. Maria Aldice Pereira, mãe da Carine, havia me mandado a resposta e dentro da carta ela e a família dizia que eles haviam passado todo o tempo pedindo a Deus que alguém mandasse uma resposta quanto aos pacientes transplantados e eu tinha sido a única pessoa que havia entrado em contato.

Irei transcrever a carta que ela me autorizou.

"Eu, Maria Aldice Pereira, perdi minha filha Carine, de 16 anos, no dia 14 de fevereiro de 2004, com um aneurisma cerebral".

Na noite anterior, Carine não se sentia muito bem e durante o sono, sentiu-se mal e eu acabei acordando com ela me segurando com firmeza. Quando consegui acender a luz do quarto, percebi que não podia fazer muita coisa, mas como a esperança ainda era maior do que o pânico, pedi ao meu filho Wellington que ligasse para o resgate.

Acabamos todos no hospital. Os médicos disseram que o sangramento deveria parar para depois poderem abrir e fazer uma espécie de drenagem. Mas o sangramento não parava e realmente foi dada morte cerebral.

Eu estava um pouco dopada, pois ver minha filha indo embora e não poder ajudar em nada, me deixou desesperada.

Um médico veio nos falar sobre a doação de órgãos. No primeiro instante, neguei, não queria que tirassem nada da minha filha.

Mas foi meu outro filho, Ugleison que me lembrou de uma fala alegre da Carine. Ela dizia que quando morresse, que era pra doar tudo, mas que dessem uma olhadinha no fígado, pois ela não deixava a cervejinha nos finais de semana!

Foram meus filhos que me convenceram da doação. O pai dela, Wilson, foi contra, mas foi obrigado a assinar a papelada, já que era a vontade da minha filha.

Passamos o resto do ano sentido muita saudades e todo dia 14 essa saudade aperta. No Natal, eu queria ter recebido o presente de que algum doador entrasse em contato, só para saber como estava um pedacinho da minha filha.

Uma enfermeira do hospital onde a Carine ficou acabou me dizendo que o coração tinha ido para uma menina de 15 anos lá no Paraná, mas que não podia saber mais nada nem dar informações. Esperei muito tempo, acreditando que os médicos me dissessem para onde foi cada órgão da minha filha, mas não disseram e não dizem nada.

Passou-se um ano e alguns dias da morte da Carine, chegou em casa uma carta de mulher, de uma outra cidade. Acreditei que fosse do meu ex-marido com assuntos da igreja, pois a carta estava no nome dele e ele foi embora pro Nordeste.

Mesmo assim, abri a carta e quando comecei a ler, não acreditava e chorava o tempo todo. A foto que ela havia mandado era muito parecida com a que a Carine tem!Comecei a ligar para meus filhos, irmãos, enfim, pra toda a família. Li a carta inúmeras vezes, tanto que sei de cor.

O nome da mulher é Ana Paula, 27 anos, mora em São José dos Campos e tem o rim e o pâncreas da minha Carine, dela agora. Como pode minha filha ter 16 e os órgãos foi pra uma mulher de 27 anos? Perguntas mil surgiram e eu quis sair de casa no mesmo instante e ir pra São José dos Campos. Senão fosse meus filhos pra me parar e dizerem que a hora que eu ficasse calma eles me levariam, eu teria saído naquele mesmo instante. E fiquei arquitetando maneiras de como conhecer essa pessoa. O noivo da Carine trabalha numa operadora e com o endereço ficava simples de conseguir o telefone... Meu irmão estava sempre viajando e acabava indo muitas vezes pra São José...

Mandei pra Ana Paula, uma carta com o telefone da minha casa e do meu trabalho, pois queria muito falar com ela, conhece – la pessoalmente.

Num sábado a noite, o telefone toca e eu estava mais uma vez contando o que havia acontecido.

Quando atendi e ouvi uma voz de mulher me arrepiei, pois sabia que era ela, a Ana Paula. Conversamos e fiquei mais aliviada, pois sabia que ela estava viva e estava bem e não tinha sinais de rejeição.

Depois de alguns meses, que muitos já haviam sonhado com a Carine, finalmente foi minha vez. Ela apareceu de moto com um amigo dela que é enfermeiro. Entrou em casa, sentou-se no sofá e disse que não tinha muito tempo para falar, pois estavam esperando - a. Abaixou-se para amarrar o tênis e disse que a menina estava chegando. Perguntei-lhe que menina, mas ela disse que precisava ir embora. Liguei pra minha nora e perguntei-lhe se ela estava grávida, não era ela. E fui perguntando pra todos que conhecia. Ninguém estava grávida. O que a Carine quis dizer com aquilo?

Continuava conversando com a menina e sempre combinávamos de nos encontrar, mas sempre acontecia um imprevisto.Quando finalmente nos encontramos, sozinhas, vi que ela era uma menina! Pequena como minha Carine e quando nos cumprimentamos e saímos para andar ela pegou na minha mão como minha filha pegava.

Tanto os meus quanto os familiares da Ana Paula estavam apreensivos, pois não sabiam qual seria nossa reação e todos queriam nos acompanhar, mesmo que de longe.

Como somos mulheres fortes, ninguém passou mal (nem chorou,nem o coração disparou, nem pressão subiu ou desceu, não se preocupem) e começou uma amizade muito bonita e sincera.

Conheci a mãe da Ana Paula, Júlia, que morou no mesmo bairro que eu moro e a amizade se fortaleceu.

Nosso encontro foi muito bom, pois ganhamos uma nova família.

Gostaria imensamente de saber quem são os outros receptores e como eles estão, pois é um prazer muito grande saber que pessoas jovens como a Ana, hoje estão vivas graças ao pedido que minha Carine nos fez quando em vida conosco. Sei que ela continua viva e que ela também sente o bem enorme que pode proporcionar à pessoas que precisavam de um fígado, da visão, do rim, de respirar...

Agradeço a Deus por ter tido a chance de ter conhecido uma pessoa especial como a Ana Paula e gostaria imensamente de conhecer outras tantas.

Fico por aqui, com um pedido especial aos médicos, hospitais ou o conselho de medicina: dêem a chance da família do doador conhecer os receptores. Para nós, isso é muito importante! E aos receptores que por ventura sabem o telefone da família ou o nome completo do doador, procurem a família. Essa atitude só vai fazer bem!

Obrigada pelo espaço."

Maria Aldice Pereira
(11) 67215078
Jardim Arise - São Paulo