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A peregrinação por insulina

23/09/2014 - DM

Para o contribuinte se não bastasse ter que enfrentar a inoperância dos exames de raios X oferecidos pelos Cais de Goiânia, ainda se deparam com problemas para conseguir insulina gratuita na Farmácia de Medicamentos e Insumos Especiais da prefeitura. A falta do medicamento, este que é vital para pacientes diabéticos, não é nova, há pelo menos quatro anos incidem sobre o cidadão e, agora, a situação se complica ainda mais com a ausência de três tipos de insulina: Humalog, Novorapid e Lantus. São mais de 1,5 mil dependentes do remédio cadastrados no banco de dados da Secretaria Municipal de Saúde (SMS).

Logo na entrada, na recepção da farmácia municipal, José Alves dos Reis, 64 anos, entra em desespero, um cartaz afixado na parede avisando a falta das três modalidades de insulina, tira-lhe o espírito de paz. “Eu e várias pessoas temos a necessidade de tomar dois tipos de insulina, a Lantus e a Novorapid, são medicamentos caros e de extrema importância para não termos altos picos de glicose e nem hipoglicemia. Não é de hoje que vem faltando esses medicamentos. Só para ter uma noção, há quatro meses ficamos sem a insulina Lantus”, denuncia o portador de diabetes. 

Descumprimento
Apesar de ser lei estabelecida, que garante gratuitamente ao contribuinte diabético o direito a insulina, a Prefeitura de Goiânia não vem cumprindo rigorosamente a determinação. De acordo com a Lei Federal 11.347, publicada no Diário Oficial da União em setembro de 2006, as pessoas que sofrem  com o diabetes no Brasil podem usufruir dos benefícios que ela se destina. Ao que a lei determina: todos os portadores de diabetes devem receber gratuitamente por meio do Sistema Único de Saúde (SUS) os medicamentos necessários para o tratamento de sua doença e os materiais necessários à sua aplicação e à monitoração da glicemia capilar.

Existem dois tipos da doença mais conhecida entre a população: o diabetes tipo 1 – quando o organismo deixa de produzir insulina ou produz uma quantidade muito pequena. Já o diabetes tipo 2 tem como peculiaridade a contínua produção de insulina pelo pâncreas. Pesquisas científicas indicam que há uma grande relação do aparecimento desta doença com a obesidade, tabagismo e o sedentarismo.

A inclusão da insulina Levemir na Secretaria de Saúde de Goiânia foi realizada após amplo debate com a regional da Sociedade Brasileira de Endocrinologia de Goiás. Este medicamento foi aprovado há vários anos no mundo inteiro, para uso em portadores de diabetes tipo 1 e tipo 2. Sua eficácia e segurança estão amplamente comprovadas na literatura científica, inclusive apresentando ganhos adicionais em relação às outras insulinas, como menor ganho de peso, menor incidência de hipoglicemias (principalmente as noturnas) e menor variabilidade glicêmica.

No entanto, a insulina Levemir, para aqueles que precisam como o caso da esposa do aposentado Raimundo Anacleto Gomes, 85 anos, que esteve na farmácia da prefeitura e só pôde levar metade da quantidade necessária, também não vem sendo bem difundida entre os pacientes da rede. “Minha mulher depende da aplicação de no mínimo duas seringas desse tipo de insulina por mês, mas hoje (ontem) só recebi uma. Mais uma vez ficou faltando, já tive que comprar no mês passado. Será que vou ter que comprar novamente? Foi só viagem perdida”, exclama Raimundo.

Realidade
Outro paciente que esteve na farmácia, ontem pela manhã, e saiu indignado com a falta do compromisso municipal foi o insulinodependente Arlindo José de Novaes, 63 anos. Ele garantiu à equipe de reportagem do Diário da Manhã, que já ficou até três meses sem receber o medicamento. “Preciso de dois tipos de insulina, Lantus e Levemir, fiquei sabendo que vou poder levar a Levemir, a outra não. Ganho R$ 522 por mês se for ter que comprar o remédio passo fome. A média de preço da Lantus é de R$ 100”, conta.

A realidade de Arlindo se torna ainda mais frustrante quando tem de sair de casa, no Residencial Itaipu, região sudoeste da Capital, por meio do transporte público, usando uma prótese de perna e não receber a quantidade necessária da medicação. A Farmácia de Medicamentos e Insumos Especiais da prefeitura fica situada no Bairro Vila Viana, região central da Capital. 

“Ano passado ocorreu situações em que fiquei até quatro meses sem insulina regularmente. Isso quando não faltam agulhas e fita para teste. Preciso de sete a dez frascos da insulina Levemir porque faço uso de dois em dois meses. São 44 ml pela manhã e 44 ml à noite. Depois do almoço tem de usar a Lantus (capaz de manter a glicemia em valores adequados por muito mais tempo do que uma insulina normal)”, explica Arlindo José. 

A manutenção da glicemia em valores ideais traz uma série de benefícios à saúde do paciente diabético e evita boa parte das complicações da doença, incluindo episódios de hipoglicemia, que são mais comuns com o uso de outras insulinas.

Explicação
A coordenadora da Farmácia de Medicamentos e Insumos Especiais da Prefeitura de Goiânia, Raquel Alves de Siqueira explica que a falta de insulina vem ocorrendo desde maio deste ano. Já em 2013, ela reconheceu a falta da medicação, mas em apenas um mês, contrariando a informação do paciente Arlindo José de Novaes. “Em 2014, o processo de compra de insulinas que cumprirá os 12 meses do ano ainda não foi concluído. Mas já temos um pedido de urgência de dez mil refis da Lantus, que deve chegar em torno de dez dias”, afirma.

Em relação as insulinas de processo rápido, Humalog e Novorapid, a coordenadora garante que dez mil refis já foram adquiridos, no entanto, a empresa responsável pelo carregamento não realizou a entrega. “O problema não está com a prefeitura, já foi feito a compra e devido a falta do produto na indústria não foi entregue. Segundo a fabricante, que nos enviou uma carta, a previsão de entrega é só para começo de outubro”, conta.

Quando mencionado a falta de agulhas e fitas de testes, reclamadas pelos insulinodependentes, Raquel Alves informou que a culpa é do paciente. “As agulhas tiveram falta durante um bom tempo. Às vezes o paciente não quer levar a que a gente tem aqui, mas agulha tem de oito milímetros, por exemplo. Até porque hoje em dia há lançamentos e tem paciente que usa apenas de quatro milímetros”, explica. 

A reportagem tentou ouvir o promotor Érico de Pina, coordenador do Centro de Apoio Operacional (CAO) do Ministério Público de Goiás (MPGO), sobre o que a instituição tem feito para ajudar os insulinodependentes ou que medidas cabíveis deverão ser tomadas. Mas até o fechamento desta edição, não houve manifestação oficial por parte dele e nem de sua assessoria de comunicação.

Tentamos também ouvir o secretário da SMS, Fernando Machado, para explicar a grande falta do medicamento nos últimos anos. No entanto, a assessoria dele informou que o titular da pasta estaria com compromissos agendados ao longo do dia e não se pronunciou sobre o caso.

Aquisição
Para o diabético receber insulina, será necessário abrir um processo administrativo junto à Secretaria Municipal de Saúde, na sede do órgão no Paço Municipal, levando documentação pessoal e informações, como resultados de exames.

Em seguida, o paciente deve levar para o médico um formulário para que ele possa apresentar mais detalhes sobre o quadro clínico do interessado. O paciente obrigatoriamente deve residir em Goiânia. Após esse procedimento, o cidadão já estará apto a receber remédios na farmácia da prefeitura.